Carro usado: o impacto da ascensão de montadoras asiáticas no mercado nacional

Imagem gerada com IA

O cenário automotivo brasileiro passa por uma transformação significativa, impulsionada pela crescente presença de montadoras asiáticas. Dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) revelam que, em 2025, quase 40% dos veículos importados emplacados no Brasil tiveram origem na China. Este marco representa uma mudança histórica, superando pela primeira vez a predominância de automóveis provenientes do Mercosul e do México nas análises da entidade.

Tradicionalmente, a percepção sobre a qualidade dos carros chineses era um ponto de ceticismo para muitos consumidores. Contudo, a chegada de marcas como BYD e GWM ao mercado nacional tem alterado essa visão. Atualmente, diversos modelos asiáticos são reconhecidos por sua tecnologia avançada, qualidade de construção e, notavelmente, por oferecerem preços mais competitivos para veículos 0 km em comparação com outras opções. Essa nova dinâmica levanta uma questão crucial para o consumidor brasileiro: a intensificação da concorrência no segmento de veículos novos poderá, de fato, tornar o carro usado mais acessível?

O novo cenário da importação automotiva no Brasil

A entrada massiva de veículos chineses no mercado brasileiro não apenas reconfigura a balança de importações, mas também desafia as montadoras tradicionais. A percepção de que carros asiáticos eram sinônimo de menor qualidade está sendo gradualmente substituída, à medida que os novos modelos demonstram avanços em tecnologia e design. Este movimento tem um efeito cascata em todo o setor automotivo, influenciando diretamente a precificação de veículos de todas as categorias.

A competitividade dos modelos 0 km provenientes da China força as demais marcas a reavaliarem suas estratégias de preço. Segundo Milad Neto, diretor executivo da K.LUME Consultoria, essa pressão por reajustes é um processo natural do mercado. Ele destaca que, onde veículos chineses entraram com propostas mais competitivas, as montadoras estabelecidas foram obrigadas a ajustar seus valores para manter a relevância.

A dinâmica de preços no mercado de seminovos

A relação intrínseca entre o mercado de veículos novos e o de usados é um fator determinante para a precificação. A chegada de modelos chineses com preços atraentes para carros 0 km pode, de fato, gerar um reajuste para baixo nos valores dos seminovos, conforme explica Milad Neto. Ele ressalta que as empresas chinesas oferecem produtos de qualidade, com tecnologia, design próprio e preços extremamente competitivos, o que naturalmente impacta o segmento de usados.

No entanto, Ana Renata Paes Barreto, diretora geral da Cox Automotive do Brasil, pondera que a negociação para veículos seminovos pode se tornar mais complexa. Além dos preços, o acesso ao crédito desempenha um papel fundamental. Bancos frequentemente oferecem condições facilitadas para financiamento de carros novos, impulsionando as vendas das montadoras. Essa situação cria um dilema para o consumidor, que se vê entre a opção de um veículo novo com financiamento facilitado e um usado, potencialmente mais barato, mas com maiores desafios na obtenção de crédito e riscos de despesas futuras.

Fatores de competitividade dos veículos asiáticos

A capacidade de oferecer veículos com tecnologia avançada a preços competitivos não é acidental. Milad Neto aponta que a China realizou um extenso “dever de casa” na indústria automobilística, desenvolvendo uma cadeia de produção altamente verticalizada. Isso significa que grande parte dos componentes, incluindo baterias – das quais a China detém cerca de 75% da produção mundial –, é fabricada internamente, reduzindo custos de logística e produção.

Além da eficiência produtiva, os incentivos fiscais no Brasil desempenharam um papel crucial. Até 2023, veículos elétricos, híbridos e híbridos plug-in, que compõem uma parcela significativa da frota chinesa, contavam com tributação zerada no imposto de importação. Embora esse cenário tenha mudado em 2024, com a introdução de uma taxa de 15%, que aumentará gradualmente para 35% em julho do ano corrente, a China soube aproveitar o período de benefício fiscal. A importação de peças para montagem local também contribui para a manutenção de custos mais baixos. Ana Barreto complementa que a qualidade do inventário que chega ao Brasil e a aceitação do público brasileiro também são fatores que aumentam a competitividade.

Geopolítica e a volatilidade dos custos automotivos

O cenário geopolítico global, como o conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, introduz incertezas sobre os preços de combustíveis e, consequentemente, de veículos. O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, uma rota comercial vital, poderia impactar o transporte de petróleo e peças. No entanto, Ana Barreto avalia que é prematuro projetar efeitos significativos no Brasil. O país, sendo exportador de petróleo, pode até se beneficiar em um primeiro momento.

Apesar da instabilidade nos preços de combustíveis, Milad Neto observa que a maior oferta de veículos eletrificados ou híbridos chineses, mesmo com preços competitivos, não se traduz automaticamente em uma mudança de preferência do consumidor brasileiro. A maior parte da frota nacional ainda é movida a combustível fóssil, especialmente no mercado de usados, que se encaixa melhor no orçamento de muitos. Em um cenário de crise do petróleo, o interesse do consumidor tende a se voltar mais para carros flex.

A escolha do consumidor: novo versus usado

A decisão entre um carro chinês 0 km e um veículo usado tradicional é complexa. O BYD Dolphin Mini, por exemplo, registrou 7.713 emplacamentos, tornando-se o 13º carro mais vendido até o momento em 2026, segundo dados da Fenabrave. No site da marca, o veículo 0 km é oferecido por R$ 119.990,00, com entrada de R$ 83.993,00. Em contraste, um Fiat Mobi 0 km, modelo de entrada de tamanho similar, pode ser encontrado a partir de R$ 83.490.

No mercado de usados e seminovos, o Volkswagen Gol continua a liderar as negociações, com 63.316 contratos em junho de 2025, conforme a Fenabrave. A Tabela Fipe indica que um modelo 2023 flex tem um preço médio de R$ 54.743,00, um valor significativamente menor do que os carros novos da BYD. Essa diferença de preço, aliada à realidade financeira de muitos brasileiros, mantém o mercado de usados aquecido, mesmo com a crescente atratividade dos veículos novos asiáticos. A escolha final dependerá da prioridade do consumidor entre custo inicial, acesso a crédito e tecnologia embarcada.

Para mais informações sobre o mercado automotivo, consulte fontes confiáveis como a Anfavea.

Fonte: infomoney.com.br

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