Herpes congênita: estudo detalha impacto em UTIs neonatais e custos no SUS

Imagem gerada com IA

A infecção neonatal pelo vírus herpes simples, conhecida como herpes congênita, representa uma das condições mais graves para recém-nascidos. Diferente das manifestações em adultos, a doença nos bebês é severa, sendo transmitida durante a gestação ou no momento do parto. No Brasil, essa condição é a principal responsável por manter os bebês internados por mais tempo em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) neonatais.

Uma análise recente, conduzida pelo Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde (CEPPS) do Einstein Hospital Israelita e publicada em fevereiro na revista Antimicrobial Stewardship & Healthcare Epidemiology, revela o peso da herpes congênita no sistema de saúde. Embora tenha uma incidência menor em comparação com outras infecções transmitidas de mãe para filho, como a sífilis, a herpes responde por 32% da ocupação dos leitos de UTI neonatal no Sistema Único de Saúde (SUS) devido a infecções congênitas.

A herpes congênita e seu impacto nas UTIs neonatais

A transmissão da herpes para o recém-nascido ocorre com maior frequência durante o parto, especialmente quando a mãe apresenta lesões ativas no canal vaginal. O risco de contágio é ainda maior nos casos em que a infecção materna é primária, ou seja, acontece pela primeira vez durante a gestação. Em situações de reativação do vírus, comuns em mulheres que já tinham herpes antes de engravidar, a transmissão é menos frequente.

Apesar de ser considerada mais rara entre as doenças congênitas, afetando, em média, uma criança a cada 20 mil nascidas, a herpes congênita é potencialmente fatal. Segundo o médico Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento Científico de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a doença pode levar a manifestações neurológicas graves e apresenta um risco de morte muito elevado para os bebês afetados.

Desafios no diagnóstico e tratamento da infecção neonatal

O estudo do CEPPS também destaca o impacto financeiro da herpes congênita no orçamento público. O tratamento dessa condição custa cerca de US$ 444 por paciente, sendo o valor mais alto entre as infecções congênitas analisadas. Essa cifra é quase três vezes superior ao investimento necessário para o tratamento de bebês com toxoplasmose congênita, evidenciando a complexidade e os recursos exigidos pela doença.

O diagnóstico precoce é crucial para reduzir o risco de morte e sequelas. Ele é confirmado por um teste simples, que pode ser feito a partir de exame de sangue ou coleta de secreção das lesões na pele, se presentes. O tratamento exige uma internação mínima de duas a três semanas para o bebê, com a administração de antivirais intensos. Diferentemente de outras doenças congênitas que podem ser tratadas fora do hospital, a herpes demanda cuidado especial em tempo integral devido à fragilidade das defesas do recém-nascido, conforme explica o Dr. Sáfadi.

Sintomas, riscos e a importância da detecção precoce

O vírus da herpes pode afetar diversos órgãos do recém-nascido, incluindo fígado, pulmões e pele, resultando em uma variedade de sintomas que dependem da área atingida. Os pais e responsáveis devem estar vigilantes para o aparecimento de lesões em formato de bolha na pele, que são os sinais mais característicos da doença. Outros indicadores importantes incluem variações bruscas na temperatura corporal (febre ou hipotermia), letargia, irritabilidade, dificuldade de alimentação, convulsões e icterícia, que se manifesta como o amarelamento da pele e mucosas.

A rápida identificação desses sinais e a busca por assistência médica são fundamentais. O diagnóstico e início do tratamento em tempo hábil são determinantes para melhorar o prognóstico e minimizar as chances de sequelas permanentes ou óbito, dada a gravidade potencial da infecção em neonatos.

Panorama das infecções congênitas e desigualdades de acesso

A pesquisa do CEPPS analisou dados de internações por infecções congênitas no SUS entre 2008 e 2024, abrangendo 194 mil hospitalizações de crianças com menos de 12 meses. As doenças investigadas incluíram sífilis, toxoplasmose, citomegalovírus, rubéola e herpes. Curiosamente, a rubéola foi a única infecção a apresentar redução de casos, chegando à eliminação da transmissão de mãe para filho a partir de 2010, um sucesso atribuído às intensas campanhas de imunização nacional.

As demais infecções congênitas analisadas registraram aumentos significativos na frequência, com uma elevação comparativa de 394% nas hospitalizações no período observado. No entanto, Gustavo Yano Callado, idealizador da investigação, ressalta que esse aumento pode indicar tanto um crescimento das doenças quanto uma melhoria nos protocolos de rastreio e diagnóstico. Acesse mais informações sobre saúde neonatal no Brasil.

O estudo também expõe profundas disparidades no acesso ao tratamento. Uma parcela considerável das internações hospitalares ocorre fora do município de residência dos pacientes, devido à carência de leitos de UTI neonatal habilitados. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, por exemplo, uma em cada três crianças com doenças congênitas é hospitalizada a mais de 100 km de sua casa. Eduardo Santana observa que essa realidade de “vazios assistenciais” impacta negativamente o prognóstico desses bebês, evidenciando uma desigualdade estrutural e de acesso no país.

Fonte: metropoles.com

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