A chegada das estações mais frias do ano tradicionalmente sinaliza um aumento na incidência de infecções respiratórias, e a gripe, causada pelo vírus influenza, não é exceção. Fatores como o clima mais seco e a maior permanência em ambientes fechados e com pouca ventilação contribuem para a rápida disseminação do vírus. Recentemente, o Brasil tem observado uma elevação nos registros de influenza A, acendendo um alerta para a importância da imunização.
Diante desse cenário, a vacinação anual contra a gripe emerge como uma ferramenta essencial para a saúde pública. A imunização não apenas protege o indivíduo, mas também contribui para a imunidade coletiva, reduzindo a circulação viral e a pressão sobre os sistemas de saúde, especialmente em grupos mais vulneráveis a complicações graves da doença.
Aumento Preocupante de Casos de Influenza
Entre o final de março e o início de abril, o país registrou um crescimento notável na incidência de influenza A, conforme indicado pelo boletim InfoGripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Embora um consolidado nacional para 2026 ainda esteja em elaboração, a região Centro-Sul foi particularmente afetada. Até o dia 4 de abril, mais de 31 mil casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) foram notificados, com mais de 13 mil confirmados laboratorialmente para vírus respiratórios.
A médica alergista e imunologista Cristina Maria Kokron, do Einstein Hospital Israelita, enfatiza os riscos: “A gripe pode evoluir com febre mais alta e complicações, incluindo infecções bacterianas como sinusite, otite e pneumonia com necessidade de internação, exacerbação de doenças crônicas, evolução para síndrome respiratória aguda grave e óbito, especialmente em grupos vulneráveis”.
A Necessidade da Vacina da Gripe Anual
A campanha nacional de vacinação contra a gripe é realizada anualmente, geralmente a partir do outono, na maior parte do Brasil. Na região Norte, a imunização ocorre no segundo semestre, alinhada ao período do “inverno amazônico”, quando há maior circulação viral e aumento de síndromes respiratórias. Para essa região, a vacina é formulada com as cepas predominantes no Hemisfério Norte.
A necessidade de se vacinar todos os anos reside na alta capacidade de mutação do vírus influenza. Pequenas alterações genéticas e rearranjos mais amplos fazem com que o sistema imunológico perca a capacidade de reconhecer o vírus eficientemente ao longo do tempo. Por isso, a proteção conferida pela vacina ou por infecções anteriores não é duradoura. Uma rede global de vigilância, coordenada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), monitora a evolução das cepas e define as variantes que devem compor as vacinas de cada temporada, garantindo que a imunização seja eficaz contra os vírus mais recentes em circulação. Recentemente, uma variante conhecida como gripe K, um subclado do vírus influenza A (H3N2), tem sido monitorada de perto pelas autoridades de saúde.
Desmistificando a Vacina: Eficácia e Segurança
É comum que dúvidas e desinformação circulem em torno da vacina contra a gripe, especialmente a ideia de que ela poderia causar a doença. Essa afirmação não procede. O imunizante é produzido com vírus inativados e fragmentados, o que o torna incapaz de provocar a gripe. “As doses para influenza disponíveis no Brasil não têm vírus vivo, ou seja, não têm o RNA, somente uma fração”, explica o pediatra Alfredo Elias Gilio, coordenador da Clínica de Imunização do Einstein. Ele reforça que o vírus está “morto e esquartejado”, impossibilitando a infecção.
Sintomas gripais após a vacinação são geralmente causados por outros agentes infecciosos que circulam na mesma época, como o rinovírus, que provoca resfriados com sintomas mais leves. Os efeitos adversos da vacina são, em sua maioria, leves e passageiros, como dor, vermelhidão e endurecimento no local da aplicação, que melhoram em até 48 horas. Reações menos comuns incluem febre, mal-estar e dor muscular. A vacinação permanece a principal estratégia para prevenir complicações graves da gripe, incluindo hospitalização e óbito.
Campanha Nacional de Vacinação e Grupos Prioritários
A vacina contra a gripe ofertada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é produzida pelo Instituto Butantan, em São Paulo. Trata-se da versão trivalente, que contém três cepas do vírus consideradas predominantes. Cerca de 80 milhões de doses são distribuídas anualmente pelo Ministério da Saúde aos estados e municípios. A campanha nacional de vacinação segue até 30 de maio e é direcionada a grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde, visando proteger os mais vulneráveis e aqueles com maior risco de exposição ou agravamento da doença.
Entre os públicos-alvo estão crianças de 6 meses a menores de 6 anos, idosos com 60 anos ou mais, gestantes e puérperas. Também são incluídos povos indígenas, quilombolas, pessoas em situação de rua, profissionais da saúde, professores, integrantes das forças de segurança, salvamento e das Forças Armadas, caminhoneiros, trabalhadores do transporte coletivo, portuários e funcionários dos Correios. Indivíduos privados de liberdade, jovens em medidas socioeducativas e pessoas com deficiência permanente ou doenças crônicas também fazem parte da lista. A médica Cristina Kokron destaca que, nesses públicos, a vacina é “especialmente crucial para desafogar o sistema de saúde, proteger os mais vulneráveis via imunidade coletiva e minimizar agravamentos em condições pré-existentes”.
Opções de Imunização na Rede Pública e Privada
Em anos anteriores, a campanha de vacinação foi ampliada para toda a população acima de 6 meses, conforme a disponibilidade de doses, permitindo que estados e municípios incluíssem novos públicos. É comum que, após o encerramento oficial da campanha, prefeituras anunciem a chamada “xepa da vacina”, abrindo a imunização para mais pessoas.
Além do SUS, o imunizante também está disponível na rede privada, com preços que variam entre R$ 75 e R$ 230. Nesses casos, a versão mais comum é a quadrivalente, que inclui uma cepa adicional do vírus influenza B. No entanto, tanto a vacina trivalente oferecida pelo SUS quanto a quadrivalente da rede privada são eficazes na prevenção de casos graves da doença. “A vacina trivalente tem a mesma abrangência de proteção que a tetravalente”, assegura a médica Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Para mais informações sobre a gripe e outras doenças respiratórias, consulte fontes confiáveis como a Fundação Oswaldo Cruz.
Fonte: metropoles.com