A luta pela democracia: o papel essencial do voto feminino

A luta pela democracia: o papel essencial do voto feminino

O direito ao voto feminino, conquistado há quase um século, volta a ser ameaçado em um cenário político onde discursos retrógrados ganham força. Em 2026, vozes influentes, tanto em instituições quanto nas redes sociais, afirmam que as mulheres “votam mal” e que a decisão de voto deve ser controlada pelos homens. Um partido político chegou a propor a substituição do sufrágio universal por um “voto familiar”, evidenciando uma tentativa de retrocesso democrático.

Essas propostas não são meras opiniões isoladas, mas sim estratégias bem elaboradas apresentadas como projetos de nação. A defesa de uma “democracia familiar” não é uma inovação, mas sim uma tentativa de restaurar um arranjo social que exclui as mulheres. Sem mulheres, não há democracia, e essa afirmação se torna cada vez mais relevante.

A história revela que a transição de sociedades coletivistas para aquelas baseadas na propriedade privada foi acompanhada pela subordinação feminina. Com a necessidade de controlar heranças, as mulheres foram transformadas em propriedades dos homens, perdendo autonomia e direitos básicos. Essa estrutura patriarcal não apenas moldou as relações de gênero, mas também influenciou os fundamentos da democracia moderna.

A democracia liberal, que se baseia na propriedade privada e nos direitos individuais, excluiu as mulheres do contrato social, relegando-as a cidadãs de segunda classe. Essa contradição é alarmante, pois um sistema que deveria promover a igualdade é, na verdade, profundamente excludente.

As “machoesferas” digitais, que proliferam nas redes sociais, amplificam discursos que promovem a desigualdade. Surpreendentemente, muitos jovens, especialmente homens da Geração Z, adotam ideias que antes eram consideradas superadas, como a naturalização de papéis subordinados para as mulheres. O Relatório Global de Desigualdade de Gênero de 2025 estima que levará mais de um século para fechar a lacuna entre homens e mulheres, sendo a esfera política a mais afetada.

Esse retrocesso não é uma hipótese, mas uma tendência mensurável. A luta feminista é complexa, pois envolve não apenas a confrontação de opressões externas, mas também a superação de normas internalizadas. O sistema patriarcal condiciona as mulheres a reproduzir discursos que sustentam sua própria subjugação, glorificando papéis tradicionais e censurando aquelas que desafiam as normas.

Quando a tutela é apresentada como defesa da família, ela recruta suas próprias vítimas. É fundamental destacar que as mulheres constituem a maioria do eleitorado brasileiro. Deslegitimar o voto feminino não é um debate, mas um ataque à base aritmética e moral da democracia.

A Constituição e a legislação eleitoral, incluindo a lei que tipificou a violência política de gênero, existem para reconhecer que discursos que atacam o voto feminino são métodos de exclusão. A sub-representação política das mulheres, que persiste apesar dos avanços, mostra que a porta de entrada continua estreita; o que se propõe agora é trancá-la definitivamente.

Para que a democracia seja efetiva e fiel ao bem comum, é preciso transcender as limitações impostas pelo machismo. Isso envolve garantir condições iguais de acesso e participação nas instituições, além de combater as estruturas de poder que sustentam o desequilíbrio, incluindo as novas, algorítmicas, que radicalizam jovens. Educação para a igualdade, políticas afirmativas e responsabilização de quem transforma misoginia em plataforma eleitoral são passos necessários.

A democracia plena deve abraçar a diversidade e assegurar oportunidades iguais para todos, independentemente de gênero. Quando o voto da mulher é tratado como uma concessão revogável, o silêncio não é uma opção. Sem mulheres, não há democracia, e essa verdade precisa ser reafirmada continuamente.

Fonte: folhavitoria.com.br

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