Recentemente, mergulhei na leitura de Um Defeito de Cor, aclamado romance histórico de Ana Maria Gonçalves, que recentemente se tornou membro da Academia Brasileira de Letras. Este livro é uma verdadeira travessia literária, proporcionando uma nova perspectiva sobre temas cruciais da nossa história, especialmente a escravidão no Brasil.
A autora, com habilidade, traça um retrato vívido da vida dos escravizados no século XIX. O título, por si só, remete a uma norma colonial que exigia que pessoas negras ou mulatas solicitassem uma “dispensa do defeito de cor” para ocupar cargos públicos, um ato que reforçava a supremacia branca da época.
A narrativa acompanha a trajetória de Kehinde, uma mulher africana escravizada, inspirada na história real de Luísa Mahin, mãe do poeta Luiz Gama. Desde sua infância no Daomé até sua busca pela liberdade, a obra explora a complexidade da vida sob a escravidão, abordando questões de identidade e resistência.
Um dos recursos narrativos mais impactantes é a transição entre as diversas experiências que Kehinde vivencia. Capturada aos seis anos, ela carrega consigo a religiosidade africana e a memória da avó, que a acompanha em sua jornada pelos navios negreiros. Após ser levada à Bahia, sua vida se desdobra em diferentes cenários, desde a senzala até a convivência com ingleses que desejavam a abolição da escravidão.
O romance não é apenas uma crônica histórica, mas também uma obra repleta de emoção, especialmente durante a Revolta dos Malês, um momento crucial em sua vida. A busca pelo filho, vendido pelo pai português, leva Kehinde a várias cidades, culminando em seu retorno à África, onde se torna amiga de figuras importantes da época.
Gonçalves utiliza sua pesquisa meticulosa, realizada ao longo de cinco anos, para contextualizar a escravidão brasileira e destacar a vida de cidadãos ilustres, como Joaquim Manoel de Macedo e Bartolomeu de Gusmão. Através do olhar de uma mulher negra, o livro revela as bases apodrecidas que sustentam uma sociedade desigual e racista.
Além de narrar a luta de Kehinde, a obra ressalta a força da cultura africana no Brasil, que, apesar das adversidades, conseguiu se reinventar. O autor Alberto Costa e Silva já destacou que no Brasil existe uma África que nem na própria África se encontra, resultado da mistura forçada e da criação de novas expressões culturais.
É essencial contar e recontar essas histórias, combatendo a desvalorização do legado africano. Um Defeito de Cor é uma obra que não apenas narra, mas também provoca reflexão sobre a identidade e a história do Brasil, ressaltando a necessidade de reconhecimento e valorização das contribuições africanas.
Fonte: eshoje.com.br