O fenômeno climático El Niño promete trazer consequências significativas para o Brasil, afetando não apenas a agricultura, mas também setores cruciais como energia, transporte e varejo. Um relatório da XP Investimentos, divulgado recentemente, destaca que os efeitos vão além do aumento da inflação de alimentos, com potenciais impactos em diversas áreas da economia.
O governo federal já se prepara para enfrentar os desafios impostos pelo El Niño, que pode resultar em quebras de safras de arroz e milho. Para mitigar esses riscos, o governo planeja ativar usinas termelétricas, com um custo estimado em R$ 1,3 bilhão, visando compensar a possível redução na geração de energia hidrelétrica.
Desafios na produção agrícola
Os analistas alertam que a inflação de alimentos deve ser uma das principais consequências do El Niño, embora não deva ser superestimada. A expectativa é que a inflação de alimentos in natura atinja um pico de cerca de 20% no segundo trimestre de 2027, antes de recuar para cerca de 5% até o final de 2028. Para 2026, o fenômeno pode acrescentar 0,35 ponto percentual ao IPCA, sendo 2,3 p.p. apenas em alimentação no domicílio.
Além disso, a produtividade média das culturas agrícolas pode cair cerca de 3% em comparação a um cenário sem anomalias climáticas, refletindo diretamente nos resultados do PIB da agropecuária. Os economistas ressaltam que a reversão dos preços após o pico do El Niño raramente ocorre de forma clara, uma vez que a inflação de alimentos tende a permanecer elevada.
Impactos no setor energético
O setor de energia é um dos mais vulneráveis aos efeitos do El Niño. O fenômeno pode afetar a geração de energia, a demanda e os níveis dos reservatórios das hidrelétricas. Historicamente, em episódios anteriores, como em 2015-16, o El Niño impactou negativamente a recuperação dos reservatórios e provocou quedas nos preços spot.
Com temperaturas mais altas, o consumo de energia tende a aumentar, especialmente com o uso de ar-condicionado. A expectativa é que, no segundo semestre de 2026, o El Niño altere a dinâmica das chuvas, beneficiando a geração de energia no Sudeste e Centro-Oeste, embora a pressão sobre os preços seja esperada devido ao armazenamento acima da média.
Reflexos no varejo e transporte
No varejo, os efeitos do El Niño são projetados como moderados, refletindo a inflação de alimentos que pode reduzir o consumo de outros produtos. A escassez de safras pode pressionar ainda mais os preços de commodities agrícolas, especialmente em produtos frescos e itens que dependem de fertilizantes e petróleo.
Por outro lado, um inverno mais curto pode beneficiar os varejistas de vestuário, evitando transições bruscas nos preços das coleções. No setor de transporte, a navegabilidade dos rios na região Norte pode ser afetada, além da exposição das empresas de transporte às implicações do fenômeno nas safras de soja e milho.
Riscos financeiros e vulnerabilidades
As carteiras de investimento concentradas em pecuária, milho e soja enfrentam riscos significativos devido à volatilidade das commodities e às variações de câmbio. O El Niño pode aumentar a vulnerabilidade dos produtores, pressionando seu fluxo de caixa em um cenário já desafiador de margens baixas.
Os analistas alertam que, dependendo do nível de exposição, o fenômeno climático pode adicionar riscos significativos ao sistema financeiro, afetando a produção agrícola e, consequentemente, a economia como um todo.
Alimentos mais sensíveis ao El Niño:
- Tubérculos, raízes e legumes
- Hortaliças e verduras
- Frutas
- Cereais, leguminosas e oleaginosas
- Pescados
- Açúcares e derivados
- Óleos e gorduras
- Aves e ovos
- Carnes
- Sal e condimentos
Fonte: eshoje.com.br