Prender líderes do tráfico é apenas uma etapa do combate ao crime organizado. O desafio seguinte é impedir que eles continuem comandando as facções de dentro dos presídios, recrutando novos integrantes e financiando suas atividades criminosas.
Especialistas ouvidos pelo Folha Vitória afirmam que o enfrentamento dessas organizações exige uma estratégia permanente baseada em inteligência, controle do sistema prisional, asfixia financeira e políticas de prevenção.
Na segunda reportagem da série especial que aprofunda cinco temas apontados pelos leitores como prioritários para o próximo governo do Estado, o Folha Vitória mostra como o sistema prisional se tornou uma frente decisiva no combate ao crime organizado e quais são os desafios para impedir que líderes de facções continuem ordenando crimes mesmo atrás das grades.
Presídio exclusivo para monitorar líderes de facções
As ações realizadas pelas forças de segurança capixaba nos últimos anos levaram para a cadeia criminosos do mais alto escalão das facções. Após a prisão, o desafio passa a ser monitorar esses detentos e impedir que os presídios se transformem em uma espécie de “escritório do crime”, de onde enviem ordens de execução de rivais e planejem a expansão dos negócios ilícitos.
Nesse quesito, o subsecretário estadual de Inteligência Penitenciária, Franzailson Ribeiro Barbosa, pontua que a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) destina um presídio exclusivamente para custódia dessas lideranças: a Penitenciária de Segurança Máxima 2 (PSMA2), em Viana.
“Nós temos 336 vagas na Penitenciária de Segurança Máxima 2, mas só contamos com 120 presos, porque é para justamente fazer essa vigilância com mais atenção dessas lideranças”, explicou.
A classificação dos internos destinados a essa unidade prisional considera critérios como posição hierárquica ou grau de influência no grupo criminoso, processos judiciais, tempo de custódia, histórico prisional e prática de crimes extramuros.
Nós mantemos todos os custodiados juntos, mesmo que pertençam a organizações criminosas diferentes, justamente para dificultar que eles pratiquem crimes, se fortaleçam internamente dentro do sistema e também se comuniquem para praticar crimes extramuros.
Franzailson Ribeiro Barbosa, subsecretário estadual de Inteligência Penitenciária
O que fazer para evitar que a cadeia seja “escritório do crime”?
Autor do livro “Terrorismo à brasileira. A guerra é real. A cegueira é legal”, o juiz e professor de Direito Penal da FDV, Carlos Eduardo Ribeiro Lemos, explica que, no passado, as facções criminosas tiveram origem dentro dos presídios.
“O Estado precisa controlar as suas prisões e não permitir que a prisão seja escritório do crime organizado. Acho que o Espírito Santo, neste ponto, está melhor do que os demais estados”, avalia Lemos.
Nesse cenário, o que fazer para evitar que detentos continuem a comandar esses grupos de dentro do sistema prisional?
As respostas a essas perguntas são essenciais para a eficácia das políticas de segurança pública e controle do crime organizado no Espírito Santo.
Fonte: folhavitoria.com.br