A velocidade tornou-se um valor central na administração pública, onde a pressão por resultados imediatos é constante. A sociedade demanda respostas rápidas, obras concluídas e problemas solucionados. Essa expectativa é legítima, mas é crucial distinguir entre uma gestão eficiente e uma verdadeiramente transformadora: a capacidade de planejar e pensar além do próprio mandato.
Essa reflexão é inspirada na obra ‘Has China Won?: The Chinese Challenge to American Primacy’, de Kishore Mahbubani, recomendada pelo Desembargador Pedro Valls Feu Rosa. Embora o foco seja a geopolítica, a obra oferece insights valiosos sobre a importância do planejamento de longo prazo. Mahbubani argumenta que o fortalecimento de instituições se dá através da continuidade de propósitos, não apenas pela sucessão de governos.
Embora um tribunal não seja um Estado, a administração judiciária enfrenta desafios semelhantes. Instituições duradouras alcançam altos níveis de desempenho ao investirem em capacidades permanentes, que geram resultados além de um mandato específico.
Os dirigentes do Poder Judiciário têm mandatos limitados, o que pode levar a uma visão excessivamente focada no presente. Embora compreensível, essa abordagem nem sempre fortalece a instituição. Mudanças significativas muitas vezes são silenciosas, envolvendo a construção de governança, revisão de processos e formação de uma cultura organizacional resiliente.
Essa perspectiva guiou diversas iniciativas sob a gestão da Desembargadora Janete Vargas Simões no Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo. Ao priorizar investimentos estruturantes, como a modernização da infraestrutura tecnológica e a capacitação contínua de magistrados e servidores, a administração optou por construir capacidades institucionais duradouras em vez de soluções temporárias.
Essa escolha reflete uma compreensão mais profunda da administração pública. Instituições se tornam mais eficientes não apenas por trabalharem mais, mas por aprenderem a trabalhar melhor. Esse aprendizado resulta da consolidação de processos e da criação de ambientes favoráveis à inovação.
A adoção de metodologias de melhoria contínua, como o Lean Office, é relevante nesse contexto, pois busca eliminar desperdícios e simplificar rotinas sem comprometer a segurança jurídica. No Poder Judiciário, rapidez e legalidade são complementares, devendo ser harmonizadas.
A estruturação de sistemas integrados de gestão administrativa vai além de um mero investimento tecnológico. Ela permite que diferentes áreas operem como partes de uma estratégia institucional coesa, promovendo eficiência e eficácia.
Outro ponto crucial é a formação de lideranças. Transformações estruturais não se sustentam apenas por normas ou tecnologia; são as pessoas que dão sentido às instituições. Investir em conhecimento e desenvolvimento humano é fundamental para preparar futuras administrações.
O verdadeiro legado de um dirigente não é apenas o que realiza durante seu mandato, mas o que permite que outros realizem depois. Legados administrativos são ativos institucionais, e uma instituição amadurece quando se apoia em processos consistentes e liderança compartilhada.
Organizações longevas não são aquelas que resolvem melhor os problemas do presente, mas aquelas que se preparam continuamente para os desafios futuros. No Poder Judiciário, cada investimento em tecnologia e cada aprimoramento de processo representam um compromisso com a qualidade da prestação jurisdicional.
Administrações passam, mas instituições permanecem. Quando uma gestão opta por construir estruturas em vez de buscar resultados imediatos, ela não apenas administra o presente, mas participa da construção do futuro. O maior legado de uma administração pública é preparar a instituição para que as próximas gestões encontrem processos mais maduros e uma organização mais apta a servir à sociedade.
Esse é o verdadeiro significado de governar com uma visão de longo prazo.
Fonte: eshoje.com.br