Dez integrantes da Bamor, a maior torcida organizada do Esporte Clube Bahia, foram detidos sob a acusação de promover tortura física e psicológica em sua sede, localizada em Salvador. Entre os presos estão o presidente da torcida, Matheus Pires Castro, e o vice-presidente, Luciano Silva Venâncio.
A investigação do Ministério Público da Bahia (MP-BA) revelou que os atos de violência eram realizados no subsolo da sede para forçar confissões sobre supostos desvios de dinheiro. Mensagens de áudio do presidente, enviadas a membros da diretoria, revelam o planejamento das agressões. Em uma gravação, Matheus diz: “Aí, amanhã a gente vai pegar ele daquele jeito vai ser uma cena triste”, e dá instruções para usar alicates para arrancar unhas e ameaçar o alvo com a “mão esmagada”.
Relatos de tortura e ameaças
As apurações indicam que os espancamentos ocorriam na sala da diretoria e duravam horas. Uma das vítimas, que foi membro da torcida por 18 anos e atuava como líder de arquibancada, relatou ter sido agredido com um martelo e facadas na mão. Ele afirmou que os agressores, cerca de dez membros da direção, o ameaçaram de morte e torturaram por quatro horas.
Outra vítima, que prestava serviços de tecnologia para a torcida, também negou qualquer fraude e relatou ter sido agredido com um taco de beisebol e chutes. Durante a tortura, ele foi forçado a fornecer senhas bancárias, resultando na retirada de mais de R$ 5 mil de sua conta.
Operação policial e apreensões
Após a denúncia, a Polícia Civil foi acionada, e o jovem recebeu ligações de membros da torcida tentando silenciá-lo. O promotor Tiago Quadros, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), afirmou que as vítimas foram submetidas a intenso sofrimento, orquestrado pela direção da entidade. No final de setembro, uma operação conjunta do MP-BA com as polícias Civil e Militar resultou na prisão dos dez investigados e na apreensão de ferramentas utilizadas nas agressões.
Denúncias e histórico de violência
Os acusados enfrentam denúncias por organização criminosa, tortura, roubo, extorsão e ameaça. Segundo o delegado Ernandes Júnior, os membros do grupo já tinham antecedentes criminais por homicídio, tráfico de drogas e violência doméstica. A defesa de Matheus e Luciano afirmou que seus clientes são inocentes e que medidas judiciais estão sendo adotadas.
Contexto de violência entre torcidas
Esses eventos ocorrem em um cenário de crescente violência entre torcedores na capital baiana. Desde 2017, os clássicos entre Bahia e Vitória são realizados com torcida única, mas os confrontos continuam nas ruas. Recentemente, um torcedor do Bahia foi morto em um confronto, levando à punição das torcidas Bamor e Imbatíveis com a proibição de participar de eventos esportivos por seis meses.
O Ministério Público enfatiza a necessidade de responsabilizar judicialmente as práticas criminosas no ambiente esportivo, ressaltando que a torcida deveria promover a diversão e a confraternização, e não a violência. Para a vítima que atuava no cadastro de sócios, a experiência foi traumatizante: “São atos que é difícil até de falar. Eles foram bastante claros que iriam me matar”.
Fonte: g1.globo.com