Durante a abertura da Febraban Tech 2026, em São Paulo, líderes do setor bancário expressaram preocupações sobre a trajetória da dívida pública brasileira. Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú Unibanco, classificou a situação como “insustentável”, destacando que o estoque de dívida, que gira em torno de R$ 10 trilhões, combinado com a taxa de juros de 14% ao ano, eleva o custo de financiamento a níveis alarmantes. Ele enfatizou a necessidade de considerar o déficit nominal nas discussões sobre as contas públicas, que inclui as despesas com juros, em vez de focar apenas no resultado primário.
Marcelo Noronha, presidente do Bradesco, também abordou a questão, afirmando que sua equipe identificou medidas que poderiam gerar uma economia de R$ 250 bilhões a R$ 580 bilhões em despesas. Essas medidas, segundo ele, representariam até 5% do PIB e dependeriam de “vontade política” para serem implementadas.
Os executivos que participaram do painel incluíram:
- Milton Maluhy Filho – presidente do Itaú;
- Marcelo Noronha – presidente do Bradesco;
- Lívia Chanes – presidente do Nubank Brasil;
- Carlos Vieira – presidente da Caixa Econômica Federal;
- Gilson Finkelsztain – presidente do Santander;
- Roberto Sallouti – presidente do BTG Pactual.
Os líderes bancários pediram que os candidatos às próximas eleições apresentem propostas concretas para as contas públicas entre 2027 e 2030. Sallouti relacionou a situação fiscal ao custo de capital no Brasil, ressaltando que a diferença entre os juros brasileiros e norte-americanos deveria ser de 150 a 200 pontos-base, enquanto atualmente está entre 500 e 550 pontos-base.
Carlos Vieira, presidente da Caixa, destacou a preocupação do governo com o equilíbrio fiscal e elogiou o trabalho do Ministério da Fazenda e da Presidência da República. Ele também mencionou que os juros elevados impactam negativamente o mercado de crédito, levando os bancos a adotarem uma postura mais cautelosa na concessão de empréstimos.
Impacto dos juros elevados no mercado de crédito
Maluhy apontou que taxas de juros altas têm reduzido a atividade econômica e aumentado a inadimplência, resultando em um aumento de 12 pontos percentuais no endividamento das famílias nos últimos quatro anos. Ele destacou o comprometimento da renda das famílias como um fator preocupante.
No Nubank, a inteligência artificial (IA) é utilizada para a avaliação de risco de crédito. Lívia Chanes afirmou que a instituição emprega modelos próprios para analisar o comportamento dos clientes, melhorando assim a concessão de empréstimos. Carlos Vieira também mencionou que o crédito imobiliário da Caixa passou por um processo de digitalização, realizando cerca de 3.000 operações diárias nessa área.
Produtividade e tecnologia como motores do crescimento
Os executivos discutiram a relação entre tecnologia, produtividade e crescimento econômico de longo prazo. Sallouti enfatizou que, diante das mudanças demográficas, o Brasil não pode depender apenas do aumento populacional para expandir seu PIB potencial. Ele defendeu investimentos em educação, infraestrutura e tecnologia nos próximos 10 a 15 anos.
Maluhy reforçou a importância da produtividade como uma pauta central para o próximo ciclo econômico. Lívia Chanes mencionou um ganho significativo na capacidade de entrega de códigos pelos engenheiros após a adoção de IA generativa.
Inteligência artificial no setor bancário
A discussão sobre IA foi um dos eixos centrais do painel. Os CEOs relataram diversas aplicações da tecnologia, incluindo atendimento ao cliente, desenvolvimento de software e operações financeiras. Noronha, do Bradesco, destacou a assistente virtual BIA, que realizou 74 milhões de transações no primeiro semestre de 2026.
Maluhy anunciou que o Itaú planeja expandir sua ferramenta de IA voltada ao atendimento para 100% de sua base de clientes até o final do ano. No Nubank, Chanes ressaltou que a adoção de IA generativa aumentou em quase 90% a velocidade de entrega de códigos. Finkelsztain, do Santander, mencionou o uso de dados para personalizar produtos financeiros.
Por fim, Sallouti, do BTG, afirmou que a questão agora é identificar onde a IA ainda não está presente, em vez de apenas descobrir onde pode ser utilizada. Os executivos também discutiram os desafios que a IA apresenta, especialmente em relação ao uso por criminosos, e a necessidade de os bancos adotarem tecnologias para proteger seus clientes.
Fonte: poder360.com.br