A rotina de navegação pelo Estreito de Ormuz foi drasticamente alterada. Em tempos de normalidade, cerca de 135 embarcações atravessavam a passagem diariamente. No entanto, no primeiro mês completo de conflito, esse número despencou para uma média de apenas seis navios por dia em ambas as direções. Dados de rastreamento de navios indicam que a vasta maioria das poucas embarcações que conseguem transitar são de bandeira iraniana ou pertencem a nações com as quais o Irã mantém relações diplomáticas cordiais. A interferência eletrônica na região e o desligamento de transponders por alguns navios contribuem para a opacidade e a complexidade da situação, embora a tendência de aumento do controle iraniano seja clara.
Atualmente, praticamente todos os navios que se aventuram pela travessia de Ormuz são obrigados a seguir rotas aprovadas pelo Irã, navegando próximos à sua costa, em vez do lado omanense do estreito. Muitas vezes, essa passagem só é concedida após conversas e negociações para garantir a segurança da embarcação. Recentemente, países como Malásia e Tailândia anunciaram acordos bilaterais com Teerã para liberar petroleiros que estavam retidos no Golfo. Em um movimento para formalizar esse controle, o Irã prepara a aprovação de uma lei que instituirá um pedágio, exigindo que qualquer navio que deseje passar compartilhe informações detalhadas sobre carga e tripulação e efetue pagamentos de taxas. Este sistema já vinha sendo reportado por armadores, que eram solicitados a fornecer dados e, em alguns casos, realizar pagamentos através de intermediários. Curiosamente, parte da interferência em sinais começou a diminuir, o que poderia ser um esforço para facilitar a navegação sob o novo regime de controle.
A soberania sobre o Estreito de Ormuz é uma questão complexa, especialmente à luz do direito marítimo internacional. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS) estabelece que a passagem de trânsito deve ser permitida em rotas marítimas críticas como Ormuz, que consiste em águas territoriais sobrepostas de Irã e Omã. Contudo, é importante notar que nem o Irã nem os Estados Unidos ratificaram formalmente a UNCLOS, o que adiciona uma camada de ambiguidade legal à situação. Para Teerã, a soberania sobre essa passagem marítima é uma das cinco condições de paz apresentadas aos EUA. O Irã declarou seu controle sobre o estreito logo após o início dos ataques de EUA e Israel, advertindo que nenhuma embarcação americana poderia entrar no Golfo Pérsico. Incidentes no início do mês, onde embarcações sem vínculos claros com os EUA foram atingidas, resultando em mortes, elevaram o alerta entre tripulações, donos de navios e seguradoras. Para mais informações sobre a UNCLOS, consulte o site das Nações Unidas: Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.
O fechamento quase total de Ormuz, orquestrado por meio de ameaças e ataques, revelou-se uma arma assimétrica de grande eficácia para o Irã contra forças militares poderosas. Essa estratégia permite a Teerã impactar diretamente os mercados globais de energia e infligir dor financeira, algo que Washington tem tido dificuldade em neutralizar. Dados mostram que, das 110 embarcações que deixaram o Golfo no período analisado, mais de 36% eram navios iranianos sancionados ou parte da chamada “dark fleet” a serviço de Teerã. No caso específico de petroleiros, 21 dos 35 que saíram tinham vínculos diretos com o Irã, e a maioria dos demais se dirigia a nações com as quais Teerã mantém relações amistosas. Uma suposição de longa data era que o Irã jamais tentaria fechar o estreito para não comprometer suas próprias exportações, mas a realidade é que o petróleo iraniano continuou fluindo, quase totalmente para a China, enquanto outras embarcações ficaram presas.
Enquanto o Irã exportou cerca de 1,8 milhão de barris por dia neste mês, um aumento de quase 8% em relação à média do ano anterior, gerando centenas de milhões de dólares em receitas, outros produtores do Golfo Pérsico enfrentaram quedas drásticas. As exportações do Iraque despencaram mais de 80%, e as da Arábia Saudita ficaram mais de um quarto abaixo da média, mesmo com o auxílio de um oleoduto para o Mar Vermelho. O impacto do controle iraniano é inegável nos mercados de petróleo, com o Brent acumulando alta de quase 60% no mês. Essa situação também se traduz em influência diplomática, levando países como Índia, Turquia, Paquistão e Tailândia a buscar a aprovação de Teerã para liberar navios e aliviar o aperto no abastecimento de energia. Washington, por sua vez, foi forçada a fazer concessões, suspendendo temporariamente sanções sobre parte do petróleo iraniano transportado por via marítima, o que permitiu à Índia receber sua primeira carga de GLP iraniano em quase oito anos. Diante do cenário, traders, transportadoras e produtores buscam se adaptar, com avaliações de frete para rotas de referência despencando e benchmarks locais de petróleo tornando-se voláteis e pouco confiáveis, impulsionando a busca por rotas alternativas e novos indicadores de mercado.
Fonte: infomoney.com.br
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