A recente escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, e a ameaça de fechamento do estratégico Estreito de Ormuz, criaram um cenário de grande incerteza global. Tradicionalmente, eventos dessa magnitude teriam o potencial de provocar uma forte valorização do dólar frente a outras moedas. Contudo, o impacto cambial no Brasil surpreendeu o mercado pela sua moderação, demonstrando uma resiliência inesperada.
De acordo com José Alfaix, economista da Rio Bravo, essa contenção da moeda norte-americana no cenário doméstico pode ser atribuída a três pilares fundamentais. Esses fatores, que incluem desde a atratividade da taxa Selic até uma percepção alterada sobre o dólar em contextos de crise, atuaram como um escudo, protegendo o real de um prejuízo econômico potencialmente muito maior.
A atratividade da Selic e o fluxo de capital para o Brasil
Um dos principais elementos que contribuíram para a estabilidade cambial foi a política monetária brasileira, caracterizada por uma taxa de juros elevada. Com a Selic mantida em 14,75%, o Brasil oferece um “carrego” (carry trade) muito atrativo para investidores internacionais.
Essa alta rentabilidade compensa o risco percebido no mercado, incentivando a entrada de capital estrangeiro no país. Tal fluxo ajuda a sustentar a demanda pelo real, exercendo uma pressão de valorização sobre a moeda doméstica e, consequentemente, contendo a disparada do dólar.
O “fator Trump” e a credibilidade do dólar como refúgio
Outro ponto crucial destacado pela análise da Rio Bravo é a mudança na percepção global sobre o dólar como um ativo de refúgio automático em tempos de crise. Segundo José Alfaix, a gestão política nos Estados Unidos, especialmente sob a influência do “fator Trump”, tem corroído a credibilidade da moeda americana nesse papel tradicional.
Essa erosão leva os investidores a buscar alternativas para proteger seus capitais em momentos de turbulência. Nesse contexto, o mercado brasileiro, com seus atrativos específicos, consegue se sobressair e captar parte desse capital que, em outras circunstâncias, migraria integralmente para o dólar.
A posição estrutural do Brasil no comércio de petróleo
A terceira explicação para a resiliência do real reside na posição estrutural e comercial do Brasil no cenário global, particularmente em relação ao petróleo. O país é um exportador líquido de petróleo, o que significa que se beneficia da alta dos preços da commodity, em vez de ser prejudicado por ela.
Essa característica atenua o choque direto na balança comercial e de pagamentos, diferentemente de nações importadoras de petróleo, como o Japão, que sofrem um impacto mais severo. A menor vulnerabilidade do Brasil a flutuações nos preços do petróleo contribui para a estabilidade econômica e, por extensão, para a contenção do câmbio.
A resiliência em números e os desafios persistentes
A eficácia desses fatores protetores é visível nas cotações do dólar. Na véspera da deflagração do conflito, a moeda norte-americana era negociada a R$ 5,13. Mais de um mês depois, no fechamento de março, o dólar encerrou cotado a R$ 5,18. Essa variação modesta é notável, especialmente considerando que o conflito ameaça uma rota por onde passa 20% do petróleo global. O ouro, outro porto seguro tradicional, exibiu um comportamento similar de contenção.
Apesar da estabilidade cambial, o economista da Rio Bravo ressalta que o cenário geral não é positivo. O mercado internacional opera sob uma lógica de aversão ao risco (risk-off), impulsionada pelo temor de uma nova onda inflacionária global. Essa reprecificação impacta outros ativos: bolsas internacionais já devolveram ganhos de meses anteriores, e no Brasil, o Ibovespa recua de seu pico pré-conflito, enquanto a curva de juros se abre.
O medo da inflação se materializou nas projeções do boletim Focus, onde a expectativa para o IPCA saltou de 3,91% para 4,31%. A conclusão da Rio Bravo é que, sem os três vetores que sustentam a atratividade do Brasil, o prejuízo econômico decorrente da crise global teria sido substancialmente maior, afetando de forma mais drástica a economia doméstica.
Fonte: infomoney.com.br