Cenário econômico pós-eleitoral exige medidas urgentes do governo

E agora, José?

O encerramento das urnas e a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva com 51,79% dos votos válidos dão início a um novo mandato, mas escancaram os desafios estruturais que o país precisa enfrentar imediatamente.

Impacto imediato nos mercados financeiros A reação dos mercados foi imediata. O dólar subiu 8,2% e a Bolsa caiu quase 14%. O mercado não votou; reagiu. E deixou um recado: confiança não se conquista nas urnas. Constrói-se com decisões.

Desafios fiscais e a herança econômica A herança econômica é preocupante. A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, os juros consomem perto de 9% da riqueza nacional e a Selic permanece em 13,75% ao ano. Milhões de empresas enfrentam inadimplência, famílias estão endividadas e as recuperações judiciais se multiplicam. O resultado é menos investimento, consumo e emprego, agravados por um cenário internacional desfavorável de juros altos e petróleo caro.

Reformas estruturais e transição regulatória Internamente, o fim da escala 6×1 e a implementação da reforma tributária exigem responsabilidade. São mudanças importantes, mas precisam considerar seus impactos sobre custos, produtividade, competitividade e empregos. Sem regras claras e transições adequadas, boas intenções podem produzir consequências indesejadas.

O caminho para a estabilidade e o crescimento O caminho para os juros caírem e o investimento voltar não é segredo. Exige coragem política, e o momento de usá-la é agora, enquanto o capital das urnas está intacto. O primeiro passo é uma âncora fiscal crível, construída pelo lado do gasto: superávit primário crescente, revisão de despesas obrigatórias e de benefícios tributários, e uma equipe econômica com mandato claro.

Cada ponto a menos na Selic representa uma economia potencial de dezenas de bilhões de reais no custo da dívida pública. Juro menor é a maior reforma ao alcance do governo, e ele só vem de forma sustentável com as contas em ordem. O segundo passo é respeitar o Banco Central, cuja autonomia é patrimônio institucional; cada ataque a ela encarece a dívida e adia o corte de juros.

O fim da 6×1 precisa de uma transição escalonada por setor e por porte de empresa, com espaço para a negociação coletiva e compensação na folha para quem mais emprega. A reforma tributária precisa de segurança jurídica: alíquotas publicadas com antecedência, ressarcimento rápido de créditos e um período de adaptação sem multas. Empresas viáveis precisam de instrumentos para renegociar dívidas antes que a falta de caixa vire falência. E o país precisa de uma agenda de produtividade, com concessões, infraestrutura e regras estáveis, para que o investimento privado faça o que o Estado já não tem como fazer.

A experiência capixaba demonstra que desenvolvimento não se improvisa. Exige disciplina, continuidade administrativa, diálogo com o setor produtivo e visão de longo prazo. São princípios que deveriam orientar também a condução da economia nacional. O presidente reeleito dispõe da experiência de três mandatos e de uma nova oportunidade para enfrentar problemas conhecidos. Seus primeiros cem dias serão decisivos para demonstrar se haverá efetivamente uma mudança de rumo.

O setor produtivo está pronto para fazer sua parte. No Espírito Santo, sabemos o que significa investir, assumir riscos e construir resultados ao longo do tempo. Não pedimos privilégios. Precisamos de confiança, estabilidade e previsibilidade.

A festa acabou. Agora começa o trabalho.

Fonte: Folha Vitória

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