Após três meses consecutivos de queda, os preços dos alimentos no domicílio no Brasil apresentaram uma alta de 0,96% em setembro, conforme dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Essa reversão no cenário inflacionário está ligada à oferta reduzida de produtos, influenciada por condições climáticas adversas, incluindo chuvas intensas e episódios de frio.
Embora o IBGE não tenha confirmado a influência do fenômeno El Niño nos preços, economistas observam efeitos iniciais do clima em relação ao custo dos alimentos. O El Niño representa um desafio para a produção agropecuária, pois altera a distribuição das chuvas e as temperaturas globais.
Segundo Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, parte da inflação já pode ser atribuída ao El Niño, que ainda não atingiu seu pico. Ele destaca que a combinação de chuvas excessivas e frio impacta diretamente a produção de hortifrúti. Vale também menciona que, após uma trégua na inflação na metade do ano, os preços tendem a acelerar devido a desafios climáticos adicionais.
Tomate registra aumento expressivo
O tomate foi o alimento que mais contribuiu para a pressão sobre o IPCA, com um aumento de 37,76% em setembro. A batata-inglesa também teve uma alta significativa de 24,07%, seguida pela cebola (10,14%), arroz (4,56%) e carnes (0,63%). Fernando Gonçalves, gerente da pesquisa do IPCA, explica que as condições climáticas, como frio e chuvas, têm dificultado a colheita e amadurecimento dos produtos, resultando em preços mais altos para os consumidores.
Gonçalves observa que as chuvas no Sul do país, uma área produtora de arroz, e em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, têm sido intensas. Ele ressalta que setembro foi um mês em que muitos não viram o sol, o que gerou uma brincadeira sobre a carência de vitamina D entre os técnicos do IBGE.
Impactos do El Niño nas previsões econômicas
Cláudio Ferraz, economista-chefe da Galapagos Capital, afirma que os reflexos do El Niño já estão se manifestando, com a aceleração dos preços de produtos in natura. Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, também acredita que é possível associar parte do aumento de preços ao fenômeno, embora a maior preocupação se concentre nos meses seguintes.
Inflação e o cenário eleitoral
A inflação se tornou um tema central na atual corrida presidencial no Brasil. O governo Lula chegou ao primeiro turno das eleições com a menor alta acumulada pelo IPCA desde o início do Plano Real, mas enfrenta desafios para reverter a vantagem do adversário, Flávio Bolsonaro. Analistas apontam que a insatisfação da população com os preços dos alimentos pode impactar negativamente a candidatura de Lula, mesmo com a alta dos preços sendo menor em seu governo.
Além disso, o IPCA indicou que comer fora de casa também ficou mais caro em setembro, com uma alta de 0,48%, refletindo o aumento nos preços de serviços de estabelecimentos como bares e restaurantes.
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – LEONARDO VIECELI
Fonte: eshoje.com.br