A tecnologia de escaneamento a laser tridimensional, utilizada no monitoramento do Coliseu de Roma, será implementada no projeto de conservação do Museu do Ipiranga, em São Paulo. A iniciativa, que tem início previsto para julho, foi apresentada pela professora Beatriz Kuhl da FAU-USP durante a Fapesp Week Londres, realizada de 2 a 4 de junho na capital britânica.
tecnologia: cenário e impactos
O escaneamento completo do museu, tanto interno quanto externo, visa analisar o comportamento do edifício após as obras de restauração dos últimos anos. O projeto também busca estabelecer um sistema de monitoramento e criar um modelo de gestão da informação para conservação preventiva, utilizando a metodologia HBIM (Historic Building Information Modelling). Essa abordagem permite a modelagem 3D de edifícios históricos, integrando dados sobre suas características físicas e sistemas em um ambiente digital tridimensional.
“A ideia é alimentar um sistema HBIM a partir de uma área piloto do museu para permitir a gestão da informação para fins de conservação preventiva”, afirmou Kuhl à Agência Fapesp.
Após uma década fechado, o museu reabriu suas portas em setembro de 2022, após reformas significativas. A execução técnica do escaneamento será realizada pelo laboratório Diaprem, da Universidade de Ferrara, na Itália, que já havia escaneado o Museu do Ipiranga antes das obras. A colaboração entre a equipe italiana, a FAU-USP e o CPC-USP (Centro de Preservação Cultural da USP) é de longa data, tendo realizado o escaneamento do edifício da FAU-USP, projetado por Vilanova Artigas, e agora retorna ao Museu do Ipiranga para registrar seu estado pós-restauração.
A continuidade da parceria é fundamental. “Para ter dados comparáveis, é essencial utilizar a mesma metodologia e os mesmos pontos de referência”, explicou Kuhl. “Um escaneamento bem planejado e consistente proporciona resultados precisos.”
Escaneamento periódico e suas aplicações
O equipamento de escaneamento, do tamanho de uma caixa de sapatos, emite raios laser que mapeiam com precisão as superfícies do edifício. Além da geometria, o escâner capta dados de refletância, que variam conforme o material e suas condições, como umidade ou presença de mofo.
Essa variação é crucial para identificar anomalias. “Identificar um ponto diferente dos vizinhos pode indicar uma manifestação patológica”, disse Kuhl. Os dados gerados formam uma nuvem de pontos que serve tanto para a memória geométrica do edifício quanto para diagnósticos estruturais e de conservação.
O escaneamento será realizado de forma gradual para não interferir nas atividades do museu. “O escâner funcionará dentro e fora do museu, e as atividades serão planejadas para não alterar a rotina. O museu não será fechado”, garantiu a pesquisadora.
Conservação preventiva como foco
O projeto do Museu do Ipiranga faz parte de uma linha de pesquisa mais ampla que Kuhl desenvolve na FAU-USP, voltada à conservação preventiva. O objetivo é antecipar problemas antes que intervenções invasivas sejam necessárias.
Um projeto anterior, financiado pela Fundação Getty, investigou o estado de conservação do edifício da FAU-USP e resultou em recomendações que influenciaram obras de melhoria, como um novo sistema de impermeabilização. Kuhl reconhece que mudar a cultura de manutenção do patrimônio público é um desafio, mas essa nova pesquisa visa direcionar esforços para evitar intervenções mais invasivas.
Referências consolidadas, como a Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, onde uma política sistemática de conservação preventiva foi aplicada com sucesso, podem servir de inspiração. O grupo de pesquisa da professora também atuará na reflexão crítica sobre métodos de diagnóstico avançado, alinhando questões de conservação e planejamento.
“Esses esforços nos ajudam a enxergar os problemas de uma nova maneira”, concluiu Kuhl.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 08 de junho de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.
Fonte: poder360.com.br