No Espírito Santo, 268.820 pessoas declararam ter alguma deficiência em 2022, índice que representa 7,2% de todos os moradores do estado — patamar alinhado à média do Brasil. O contingente feminino lidera as estatísticas capixabas, somando 152.144 cidadãs, enquanto os homens representam 116.676 pessoas desse total.
Impacto do envelhecimento e a sobrecarga feminina
A incidência de limitações físicas, sensoriais ou intelectuais se intensifica conforme a idade avança. Enquanto na faixa etária de até 59 anos a proporção é de apenas 5,2%, o índice salta para 19,1% entre quem já completou 60 anos e atinge expressivos 27% na população com mais de 70 anos. Esse movimento demográfico coloca um desafio crescente dentro das residências, nas quais parentes assumem a rotina de assistência muitas vezes sem amparo estruturado.
A responsabilidade do cuidado recai predominantemente sobre as mulheres, gerando reflexos diretos na autonomia financeira. Em lares onde vivem crianças com deficiência, a taxa de ocupação feminina no país é de 43,1%, contra 55,2% naqueles com crianças sem deficiência. A necessidade de dedicação integral aos dependentes frequentemente afasta mães e cuidadoras do mercado formal de trabalho.
Barreiras históricas na educação e remuneração
A disparidade social tem raízes na fase escolar. Segundo dados nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 63,1% das pessoas com deficiência a partir de 25 anos não possuem instrução ou sequer concluíram o ensino fundamental — índice que cai para 32,3% no restante da população. Além disso, apenas 7,4% alcançaram o ensino superior, diante de 19,5% das pessoas sem deficiência.
Esse cenário educacional trava a inserção profissional:
Apenas 29% das pessoas com deficiência tinham ocupação no território nacional em 2022. Já o rendimento médio apurado foi de R$ 2.053, o que equivale a cerca de 70% do ganho dos trabalhadores sem deficiência. O quadro é ainda mais restritivo para o público feminino com deficiência, cuja taxa de ocupação foi de 24,4%, frente a 47% das mulheres sem deficiência.
Vulnerabilidade entre populações indígenas
A realidade se mostra ainda mais desafiadora nas comunidades tradicionais capixabas. A proporção de indígenas com deficiência chega a 11,4% — bem acima dos 7,2% da média geral do Espírito Santo. O analfabetismo nesse grupo atinge 24%, contra 19,5% observado na média estadual de pessoas com deficiência.
Para mitigar essas lacunas, organizações sociais atuam diretamente nos territórios. Em Aracruz, aproximadamente 100 indígenas com deficiência recebem suporte por meio da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). A Federação das Apaes do Espírito Santo realizou, em 2025, um seminário sobre inclusão e direitos na Aldeia Pau Brasil, iniciativa que ganhou visibilidade internacional e foi levada à Conferência dos Estados Partes da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em Nova York.
A relevância da Lei de Cotas para a economia capixaba
Prestecomeçar seu trigésimo quinto ano em 2026, a Lei de Cotas segue como a principal ferramenta de inclusão produtiva no país. Atualmente, mais de 48 mil companhias estão sujeitas ao dispositivo legal, garantindo a reserva de cerca de 1.037.591 postos. Na prática, 93,8% dos profissionais com deficiência contratados formalmente estão alocados nessas empresas. De acordo com informações de um coordenador do governo federal, as admissões formais tiveram salto de 64% a partir de 2008, impulsionadas pelo aperto na fiscalização.
Contudo, um alerta emitido em abril pelo Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência destacou que eventuais quedas nos contratos celetistas gerais podem encolher a base de cálculo das cotas, fechando postos essenciais. Em território capixaba, onde os setores de serviços, logística e indústria possuem forte peso econômico, garantir o cumprimento dessas exigências legais e fortalecer a rede de assistência comunitária são passos decisivos para evitar que a inclusão dependa unicamente do sacrifício individual das famílias.
Fonte: Folha Vitória