Nos últimos cem anos, a expectativa de vida no Brasil passou por uma transformação significativa. O que antes era um privilégio de poucos, agora se tornou a norma, trazendo à tona novos desafios na saúde pública: como atender uma população que vive mais e enfrenta doenças crônicas e limitações funcionais?
O Brasil está vivenciando essa transição demográfica de forma acelerada. Em 2010, o país contava com 20,5 milhões de idosos; até 2025, esse número deve ultrapassar 35,2 milhões, segundo dados do IBGE. Essa mudança representa um crescimento de 71% em apenas 15 anos. Projeções indicam que, até 2050, mais de 65 milhões de brasileiros terão 60 anos ou mais, correspondendo a cerca de 30% da população.
“Estamos envelhecendo mais rapidamente do que muitos países desenvolvidos. Isso significa que temos menos tempo para adaptar nosso sistema de saúde a essa nova realidade demográfica e epidemiológica”, afirma Rafael Herrera Ornelas, médico de família e diretor de Atenção Primária do Einstein Hospital Israelita.
Essa transformação não se limita à idade da população; ela altera o perfil epidemiológico que chega aos serviços de saúde. “Historicamente, nosso sistema se concentrou em doenças agudas e infecciosas. Com o envelhecimento, é imprescindível focar em doenças crônicas e incapacidades”, explica Leonardo Oliva, geriatra e presidente da SBGG.
Nas próximas décadas, espera-se um aumento significativo de casos de hipertensão, diabetes, câncer e doenças cardiovasculares, além de uma maior incidência de múltiplas condições coexistentes. Isso exige uma mudança na abordagem do cuidado. “Devemos passar de um modelo reativo para um proativo, identificando riscos precocemente e intervindo antes que as complicações se agravem”, destaca Ornelas.
Atualmente, mais de 80% dos brasileiros acima de 60 anos dependem do SUS, conforme o Elsi-Brasil, estudo realizado pela Fiocruz. Esse cenário pressiona o sistema público, e o impacto na sua sustentabilidade vai além do aumento no número de idosos. “O custo para o SUS não é apenas pelo envelhecimento, mas pela presença de doenças preveníveis e incapacidades acumuladas ao longo da vida”, afirma Alexandre Kalache, epidemiologista e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil.
A explicação reside no conceito de curso de vida, onde hábitos e condições sociais desde a infância impactam a saúde na velhice. Assim, preparar o sistema de saúde para o envelhecimento não envolve apenas aumentar leitos ou contratar mais profissionais, mas sim implementar ações de prevenção e promoção da saúde desde cedo.
A fragilidade que pressiona o sistema
Um termo frequentemente mencionado no debate sobre envelhecimento é “fragilidade”. Embora pouco conhecido, ele explica parte significativa da pressão sobre os serviços de saúde. A fragilidade é uma síndrome que resulta na redução das reservas fisiológicas do organismo, tornando o corpo menos capaz de lidar com situações que antes eram superadas facilmente. “Uma infecção urinária, por exemplo, pode ser simples para uma pessoa saudável, mas para um indivíduo frágil, pode resultar em hospitalização ou até morte”, explica Oliva.
Um estudo publicado na Scielo Brasil em 2025, envolvendo quase 10.000 pessoas com 50 anos ou mais, estimou que cerca de 38% apresentavam algum grau de fragilidade. A pesquisa revelou uma associação direta entre fragilidade e maior utilização dos serviços de saúde, com indivíduos mais frágeis sendo internados com mais frequência.
Os impactos da fragilidade também se refletem na capacidade de realizar tarefas diárias. A identificação precoce dos sinais de fragilidade é crucial. “Muitas vezes, o sistema reconhece a fragilidade apenas após uma internação ou queda. O ideal é agir antes da crise”, ressalta Ornelas.
A força da atenção primária
A atenção primária é considerada a principal ferramenta para enfrentar o envelhecimento populacional. As unidades básicas de saúde (UBSs) têm um papel estratégico, pois acompanham os pacientes ao longo do tempo e conhecem seu contexto de vida, permitindo a identificação de riscos antes que se tornem emergências.
“O idoso necessita de cuidado contínuo e próximo da comunidade. A atenção primária é o ponto da rede com maior capacidade de organizar esse cuidado e identificar fragilidades”, afirma Ornelas.
Quando o sistema de saúde está bem organizado, evita-se complicações e uso desnecessário de serviços, melhorando a adesão ao tratamento. “Precisamos de planos de cuidado compartilhados e protocolos assistenciais integrados”, sugere Ornelas.
A estratégia de centralizar a atenção primária já está sendo adotada pelo SUS. O Ministério da Saúde destaca a PNSPI (Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa), que visa promover a autonomia e a capacidade funcional dos idosos. Para isso, foi incorporado ao prontuário eletrônico do SUS o IVCF-20, ajudando as equipes a identificar idosos vulneráveis.
Além disso, o ministério utiliza dados do Elsi-Brasil para orientar políticas públicas e desenvolver programas específicos para doenças crônicas e atenção domiciliar. Exemplos incluem o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa.
Experiências como o PAI (Programa Acompanhante de Idosos), desenvolvido pela Prefeitura de São Paulo, buscam atender idosos em situação de vulnerabilidade clínica e social, enfrentando desafios como isolamento e falta de suporte familiar.
Fonte: poder360.com.br