Por Bruno Bucis, da Agência Einstein
O número de mortes por meningite no mundo apresenta uma diminuição, mas essa redução esconde uma realidade preocupante: o ritmo de queda é inferior ao projetado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), sem indícios de melhora nos próximos anos. Essa conclusão é fruto de um estudo publicado na edição de maio da revista The Lancet Neurology, que analisou dados de 2023 coletados por colaboradores do levantamento Global Burden of Disease Study (GBD).
A pesquisa avaliou 17 patógenos causadores da meningite, tornando-se a análise internacional mais abrangente já realizada sobre o tema. Os resultados indicam que, embora as iniciativas de combate tenham trazido resultados, a velocidade da queda é insuficiente para que o mundo atinja as metas estabelecidas pela OMS para 2030. O objetivo é reduzir em 70% as mortes registradas em 2015, quando a doença causou cerca de 300 mil óbitos. Contudo, o novo estudo revela que em 2023 foram computadas 259 mil mortes, ainda muito distante do número desejado.
“A desaceleração que vemos hoje reflete uma estabilização no combate à doença após os ganhos iniciais da vacinação”, analisa o neurologista João Victor Luisi de Moura, do Einstein Hospital Israelita. “Hoje, o progresso é travado por uma série de fatores, incluindo o avanço de sorotipos causadores da doença que não são cobertos pelos imunizantes, o aumento relativo de causas virais da meningite e desigualdades no acesso à vacinação globalmente, o que impede quedas mais rápidas.”
O que é a meningite?
A meningite ocorre quando as meninges, membranas que envolvem o cérebro, ficam inflamadas devido a infecções bacterianas ou virais. É a principal causa infecciosa de deficiências neurológicas no planeta. O estudo do GBD revela que foram mais de 2,5 milhões de novos casos da doença em 2023, afetando com maior gravidade especialmente crianças menores de 5 anos, que representaram mais de 1/3 das mortes, totalizando 86.600 óbitos.
De modo geral, os pequenos são mais suscetíveis a casos graves e podem morrer rapidamente sem tratamento adequado. Por isso, a vacinação deve ocorrer nos prazos recomendados pelas autoridades de saúde, com doses aos 3, 5 e 12 meses de vida. “A letalidade dessa doença depende da resposta do sistema imunológico do paciente à infecção e, em algumas situações, a resposta excessiva do próprio sistema imune das crianças também compromete a saúde. Para controlar a mortalidade, é fundamental que o diagnóstico e o início do tratamento sejam feitos prontamente”, explica Moura.
A doença apresenta uma série de sintomas associados, como dor de cabeça e febre, mas o sinal mais característico é a rigidez no pescoço, uma dificuldade em encostar o queixo no peito, embora nem sempre esteja presente. Os principais agentes causadores em 2023 foram as bactérias Streptococcus pneumoniae (conhecida como pneumococo) e Neisseria meningitidis (meningococo), além dos enterovírus não poliomielíticos (EVNP), que incluem alguns dos causadores da doença mão-pé-boca.
O estudo identificou como principais fatores de risco para mortalidade por meningite o baixo peso ao nascer, a prematuridade e a poluição do ar domiciliar. As condições socioeconômicas também podem ser determinantes. “É na população de mais baixa renda que há menores coberturas vacinais e maior dificuldade no acesso a serviços de saúde que realizem o diagnóstico precoce e tratamento adequado. Isso amplia tanto a incidência quanto a mortalidade por meningite”, afirma o neurologista.
A vacinação como papel-chave
A imunização é o principal instrumento de controle da meningite bacteriana. No entanto, a cobertura permanece desigual entre países. Nações da África Subsaariana, por exemplo, têm um histórico de baixa adesão nas campanhas, tornando a região conhecida como “cinturão da meningite”.
No Brasil, o calendário de imunização do SUS (Sistema Único de Saúde) contempla proteção contra as principais bactérias causadoras (pneumococo, meningococo e as do grupo Haemophilus). “É importante tomar todas as vacinas nas idades indicadas para adequada proteção. Um esquema vacinal completo, além de garantir imunidade individual, reduz a circulação dos patógenos na população”, diz o médico do Einstein.
Apesar da oferta em todo o território nacional, muitas vacinas que protegem contra a meningite ainda têm cobertura abaixo da meta. A vacina contra o meningococo, por exemplo, alcançou 90,7% do público-alvo em 2025, segundo o Ministério da Saúde. Embora seja o melhor número desde 2020, o objetivo era vacinar 95% da população na idade correta. Desde a pandemia de covid, as vacinas que previnem a meningite não têm alcançado os índices ideais. “No Brasil, a incidência e mortalidade em 2025 foram semelhantes às de 2014, ou seja, não houve nem a redução moderada global”, afirma João Victor de Moura.
Em 3 de junho, o Ministério da Saúde anunciou o início da vacinação no SUS com a pneumo 20. O imunizante protege contra 20 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, que, além de meningite, causa pneumonia. Entre os grupos prioritários para receber a nova vacina estão crianças menores de 5 anos, povos indígenas maiores de 5 anos (sem histórico vacinal com pneumo conjugada), idosos com 60 anos ou mais acamados e/ou institucionalizados, e pessoas com condições clínicas específicas atendidas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE).
Mesmo para quem faz a prevenção correta, é importante continuar atento: há agentes causadores de meningite para os quais não existem vacinas disponíveis. O estreptococo do grupo B é um exemplo, e crianças com menos de 5 anos são especialmente vulneráveis. O acompanhamento de saúde da gestante permite identificá-lo e realizar o tratamento com antibióticos para impedir a passagem de mãe para filho, principal via de contágio.
O uso de antibióticos, porém, deve ser feito apenas quando recomendado, pois representa uma ameaça adicional ao controle da meningite. “O uso indiscriminado de antibióticos, como para tratar infecções respiratórias e urinárias, favoreceu o surgimento de cepas resistentes de meningite. Isso reduz a eficácia dos tratamentos e aumenta o risco de complicações e morte”, alerta o neurologista. Portanto, diante de qualquer sinal de meningite, é essencial procurar atendimento médico.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Einstein. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.
Fonte: poder360.com.br