A recente queda de 75% no preço do cacau no mercado internacional trouxe à tona uma crise alarmante para os pequenos agricultores da África Ocidental. Após um pico histórico de quase US$ 13.000 por tonelada em 2024, o valor despencou para cerca de US$ 3.000 em abril de 2026, revelando a vulnerabilidade de um setor já fragilizado.
Esse cenário gera dilemas difíceis para os produtores. Uma agricultora da Costa do Marfim expressou sua angústia ao questionar se deveria priorizar a educação de seus filhos ou a colheita do cacau, essencial para a alimentação da família. Com cerca de 2,5 milhões de pequenos agricultores na região, muitos enfrentam a dura realidade de vender suas colheitas a preços irrisórios, resultando em pobreza extrema, mesmo com a produção em andamento.
Impactos em Gana e Costa do Marfim
Em Gana, a situação é igualmente crítica, com muitos agricultores enfrentando atrasos nos pagamentos por parte dos intermediários. Um produtor local relatou que a falta de recursos está comprometendo a colheita, enquanto outros lutam para pagar as mensalidades escolares de seus filhos. A escassez de dinheiro para remédios e insumos agrícolas agrava ainda mais a crise.
Causas da queda de preços
As flutuações extremas nos preços do cacau podem ser atribuídas a uma combinação de fatores. Inicialmente, as safras ruins na África Ocidental levaram a um aumento nos preços, mas a expectativa de colheitas melhores fez com que comerciantes vendessem seus contratos antecipadamente, resultando na queda abrupta. Além disso, a valorização do dólar e a redução da demanda da indústria do chocolate, que começou a utilizar menos cacau, contribuíram para a desvalorização.
Exportações em crise
Costa do Marfim e Gana, responsáveis por cerca de 66% da produção mundial de cacau, enfrentam um bloqueio nas exportações. Grandes multinacionais reduziram suas compras, resultando em um acúmulo de cacau nos portos. Analistas suspeitam que essa estratégia visa pressionar os preços para baixo, afetando ainda mais os agricultores.
Responsabilidades e soluções
O governo ganês reagiu à crise reduzindo o preço mínimo pago aos produtores, enquanto na Costa do Marfim, o órgão regulador estabeleceu um preço de 2.800 francos CFA por quilograma. No entanto, a queda nos preços globais gerou críticas sobre a eficácia dessas medidas. Muitos agricultores estão preocupados com a possibilidade de desistir do cultivo de cacau se não receberem apoio governamental.
Oportunidades de processamento local
A crise também levanta questões sobre a estrutura do setor. A maioria do cacau é exportada como matéria-prima, enquanto o valor agregado é gerado em outros países. Especialistas sugerem que a queda nos preços pode criar oportunidades para o processamento local, aumentando o valor do cacau e gerando empregos. No entanto, desafios como a necessidade de padronização e infraestrutura adequada permanecem.
Pressão por regulamentação
Com a crescente pressão para regulamentar o setor, normas como o Regulamento da União Europeia sobre desmatamento e a Diretiva sobre Responsabilidade Social Corporativa exigem que as empresas adotem práticas mais sustentáveis. A certificação Fairtrade está se tornando cada vez mais relevante, à medida que mais da metade dos produtores de cacau não recebe uma renda digna.
Fonte: poder360.com.br