As eleições brasileiras têm se caracterizado por um fenômeno intrigante: muitos eleitores não votam por entusiasmo, mas por comparação e rejeição. Essa realidade foi evidenciada em uma pesquisa do Datafolha, que revelou que 30% dos eleitores escolhem um candidato principalmente para impedir a vitória de outro. Além disso, os líderes da disputa presidencial apresentavam altos índices de rejeição, com 45% e 46% do eleitorado afirmando que não votaria neles.
O paradoxo se torna claro: no primeiro turno, o eleitor busca o candidato que considera melhor, enquanto no segundo turno a pergunta se transforma em “Qual deles é o menos pior?”. Esse cenário é reforçado por resultados apertados nas últimas eleições, como em 2014, 2018 e 2022, onde a frustração de uma parte da sociedade que se sente pouco representada cresce.
O fenômeno do “voto útil” também contribui para essa dinâmica. À medida que a eleição se aproxima, muitos eleitores abandonam suas preferências iniciais para apoiar quem acreditam ter mais chances de derrotar um adversário. Embora essa prática seja legítima, ela pode transformar a eleição em um plebiscito de rejeições, onde o voto é predominantemente contra alguém, e não a favor de um projeto.
Não há uma solução mágica para esse dilema, e mudar o sistema eleitoral por si só não resolverá o problema. A responsabilidade recai sobre o eleitor, que deve buscar votar mais pela razão do que pela emoção. Em vez de se perguntar apenas “de qual candidato eu gosto?”, é importante estabelecer critérios objetivos: quem tem capacidade de formar uma boa equipe? Quem possui experiência em momentos de crise? Quem apresenta propostas viáveis? Quem respeita as instituições e dialoga com diferentes setores da sociedade?
Os partidos também têm um papel crucial em apresentar candidatos que possam construir pontes, em vez de apenas fortalecer suas próprias bases. A polarização pode mobilizar militâncias e ganhar eleições, mas não é suficiente para construir um projeto nacional duradouro.
O desafio brasileiro, portanto, é recuperar o voto de convicção. No primeiro turno, a escolha deve ser pelo melhor candidato. E, caso haja um segundo turno, a decisão não deve se restringir ao “menos pior”, mas sim avaliar com serenidade qual dos candidatos tem melhores condições de governar para todos, incluindo aqueles que não votaram nele.
Democracia é, acima de tudo, escolher com responsabilidade quem terá nas mãos decisões que afetarão a vida de milhões de pessoas. Para reflexão: você já definiu seu voto para o primeiro turno nas eleições presidenciais de 2026? E, se houver segundo turno, já sabe em quem votaria?
Fonte: eshoje.com.br