A pandemia de covid-19 e as ameaças de surtos virais, como ebola e hantavírus, ressaltam a importância de sistemas de alerta precoce na saúde pública. No Brasil, onde surtos de doenças como dengue e chikungunya são frequentes, a capacidade de antecipar essas crises pode ser crucial para a proteção da população e a eficiência dos serviços de saúde.
Recentemente, um estudo avaliou o desempenho do ÆSOP (Sistema de Antecipação de Surtos com Potencial Pandêmico), implementado pelo Ministério da Saúde. Este sistema cruza dados da Atenção Primária à Saúde (APS) do SUS com informações sobre vendas de medicamentos isentos de prescrição, como descongestionantes nasais, para identificar sinais precoces de surtos.
A importância da Atenção Primária à Saúde
A APS é a principal porta de entrada do SUS, concentrando ações de promoção da saúde e prevenção de doenças. Desenvolvida nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), a APS é organizada principalmente pela Estratégia Saúde da Família (ESF), que conta com equipes multiprofissionais para acompanhar as famílias em territórios definidos.
Pesquisadores da Fiocruz e da Coppe/UFRJ desenvolveram a tecnologia que fundamenta o ÆSOP, cujos resultados foram publicados na revista npj Digital Public Health, do grupo Nature.
Desafios na detecção de surtos
Mapear os primeiros sinais de transmissão de uma doença é um dos principais desafios da saúde pública. O reconhecimento de novos agentes infecciosos depende da capacidade da rede de vigilância e da infraestrutura local de saúde. Muitas vezes, os surtos começam de forma sutil, com sintomas que se assemelham a outras infecções conhecidas.
Por exemplo, durante os surtos de ebola na África Ocidental, um diagnóstico precoce poderia ter reduzido drasticamente a taxa de contaminação. Situações similares foram observadas com o zika vírus no Brasil e o Sars-CoV-2 na China, onde os vírus circularam antes de serem oficialmente identificados.
Capacidade de antecipação do ÆSOP
A principal vantagem do ÆSOP é a capacidade de detectar casos leves antes que a transmissão se reflita em hospitalizações. O estudo demonstrou que os dados utilizados podem antecipar aumentos de internações por doenças respiratórias no Brasil. Os resultados indicaram que:
- Vendas em farmácias: os dados sobre medicamentos emitiram alertas antes do aumento das hospitalizações em 57% dos casos analisados;
- Antecipação da crise: os alertas surgiram de uma a três semanas antes do aumento de casos graves;
- Atenção primária: os dados da APS também anteciparam cerca de 60% dos aumentos observados.
Essas fontes de dados permitem identificar surtos antes que seu impacto seja sentido nos hospitais, fornecendo um tempo valioso para preparar a rede assistencial.
Vigilância sindrômica e sua eficácia
A vigilância sindrômica é uma estratégia que monitora padrões de sintomas para identificar precocemente surtos. O ÆSOP combina dados da APS e informações sobre vendas de medicamentos, permitindo uma resposta mais ágil a surtos potenciais.
Desigualdades regionais e próximos passos
O desempenho do ÆSOP varia entre as regiões do Brasil, refletindo desigualdades na organização dos serviços de saúde. Em cerca de 75% do território, pelo menos uma das fontes de dados mostrou boa performance. A identificação de períodos com aumento de atendimentos na APS e vendas de medicamentos, sem crescimento correspondente nas hospitalizações, sugere surtos de casos leves que podem preceder doenças mais graves.
Com o sistema ÆSOP em implementação, a combinação de dados de saúde com informações climáticas e socioeconômicas pode fortalecer os sistemas de alerta precoce, proporcionando tempo essencial para a organização dos serviços de saúde e a realização de investigações epidemiológicas.
Em um mundo interconectado, a rapidez na identificação de surtos pode ser a chave para evitar crises de saúde pública de grandes proporções.
Fonte: poder360.com.br