Uma investigação realizada pelo Serviço Mundial da BBC revelou que anúncios pagos no Facebook têm sido utilizados para espalhar desinformação durante a eleição parlamentar antecipada na Sérvia. Os anúncios, que visavam o movimento estudantil e continham acusações infundadas contra opositores políticos, foram publicados por dezenas de páginas sem a devida transparência sobre seus financiadores, desrespeitando as diretrizes da Meta, empresa controladora da plataforma.
De acordo com a BBC, foram identificadas 56 páginas que veicularam pelo menos 90 anúncios entre meados de setembro e outubro. A Meta removeu 47 desses anúncios, que não estavam devidamente classificados como conteúdo político, como exigido por suas políticas. A investigação também apontou que todos os anúncios foram pagos em moeda romena, o leu, totalizando gastos superiores a 29.437 lei, cerca de R$ 30 mil.
Financiamento e regulamentação das campanhas eleitorais
A legislação sérvia proíbe o financiamento estrangeiro em campanhas políticas, mas a BBC constatou que os anúncios foram pagos por uma empresa romena. A propaganda política é permitida nas plataformas da Meta, mas as regras de transparência variam conforme o financiador. Enquanto partidos políticos devem declarar seus gastos, páginas que promovem conteúdo eleitoral sem vínculo direto com partidos precisam reportar à Agência Anticorrupção antes de ultrapassarem o limite legal de gastos.
Até o momento, nenhuma comunicação desse tipo foi registrada, levantando preocupações sobre a integridade do processo eleitoral. As eleições parlamentares na Sérvia estão marcadas para este domingo, 25, e ocorrem em um contexto de crescente tensão política, especialmente após a tragédia na estação ferroviária de Novi Sad, em 2024, que resultou em protestos massivos e acusações de corrupção contra o governo.
Impacto da desinformação nas eleições
A campanha de desinformação observada nas redes sociais é considerada uma das mais significativas desde a ascensão do Partido Progressista Sérvio (SNS) ao poder. As páginas identificadas pela BBC foram criadas pouco antes das eleições e publicaram mais de 800 vídeos curtos com conteúdo negativo direcionado a candidatos do movimento Estudantes Vencerão, que representa a oposição. Apesar de terem poucos seguidores, esses vídeos conseguiram alcançar milhões de visualizações devido à promoção paga.
Os anúncios frequentemente apresentavam narrativas distorcidas e acusações sem evidências, como um vídeo que atacava a fé muçulmana de uma candidata de oposição, gerando reações de ódio nos comentários. A utilização de inteligência artificial para gerar conteúdo e a falta de identificação dos apresentadores também foram notadas, com muitos rostos e vozes que pareciam artificiais, o que levanta questões sobre a autenticidade das informações disseminadas.
Reação das autoridades e desafios na moderação de conteúdo
A atuação da Meta tem sido questionada não apenas na Sérvia, mas também no Brasil, onde o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exigiu esclarecimentos sobre as regras de uso de inteligência artificial e veiculação de conteúdos políticos. O Comitê de Supervisão de Conteúdo da Meta expressou preocupações sobre falhas na transparência e moderação de conteúdo, que podem comprometer a integridade eleitoral.
Além disso, um levantamento da organização CTRL+Z revelou mais de mil casos de remoção de publicações e restrições a contas relacionadas às eleições no Brasil, com denúncias atingindo principalmente perfis de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, mas também incluindo restrições a conteúdos contrários ao presidente. A situação ressalta a complexidade da moderação de conteúdo em plataformas digitais, especialmente durante períodos eleitorais.
Conexões romenas e a identificação de apresentadores
A investigação da BBC também revelou conexões com a Romênia, onde a empresa Bmobile SRL foi identificada como anunciante em três anúncios que foram removidos por não estarem devidamente identificados. A BBC tentou contato com a empresa, mas não obteve resposta. Além disso, a identificação de apresentadores nos vídeos revelou que alguns eram animadores infantis e políticos romenos, que negaram qualquer autorização para o uso de suas imagens.
A eleição parlamentar da Sérvia é considerada crucial para o futuro político do país e a disseminação de desinformação pode ter um impacto significativo no resultado. A situação atual destaca a necessidade de maior vigilância e regulamentação no uso de plataformas digitais durante campanhas eleitorais.
Fonte: g1.globo.com