Jaboticabal e o mistério das sete catacumbas: o que é fato ou lenda

Cheiro de carne queimada, febre amarela: o que é fato e o que é lenda sobre as 'Sete Catacumbas' de Jaboticabal, SP

A história que mistura morte, epidemia e assombração atravessa gerações em Jaboticabal, no interior paulista, alimentando relatos de luzes misteriosas e pessoas supostamente sepultadas vivas.

A origem do Cemitério São Bom Jesus do Lazareto

Uma epidemia de febre amarela atingiu Jaboticabal em 1896. Na época, o medo do contágio levou à criação de cemitérios afastados da área urbana para receber corpos das vítimas da doença. O Cemitério São Bom Jesus do Lazareto, onde fica uma capela de mesmo nome, foi um desses locais.

Conforme aponta o memorialista e fotógrafo José Mario de Oliveira, que pesquisa o tema, o espaço funcionou justamente devido ao pânico coletivo daquele período.

“A epidemia da febre amarela aconteceu em 1896, matou bastante gente na região e, na época, por medo do contágio dela, eles faziam cemitérios longe da cidade. O Cemitério do Senhor Bom Jesus, que é onde hoje está localizada a Capela do Senhor Bom Jesus do Lazareto, estava em um bairro bem distante da cidade.”

Com o passar dos anos, o isolamento cobrou o preço físico do local. “Eles foram enterrando as pessoas que morriam de febre amarela. Em 1931, o local já era lotado. Porém, devido à ação do tempo, pelo abandono de outras épocas e também porque ninguém cuidava do cemitério porque era longe da cidade, as sepulturas foram desaparecendo”, detalha Oliveira.

A diferença entre as catacumbas e a influência da TV espanhola

O especialista esclarece que a narrativa das sete catacumbas costuma ser confundida com a de outro ponto histórico do município, situado a cerca de 15 quilômetros dali. Trata-se de um local na Estrada do Carretão atribuído ao falecimento de uma família inteira que buscava socorro médico.

“Nesse lugar, eles foram sepultados, ali mesmo, por medo do contágio e é o que deu origem às três catacumbas. Nós não sabemos, não conseguimos identificar o nome de quem morreu ali”, afirma o pesquisador.

Por outro lado, a lenda específica envolvendo sete espanhóis ganhou repercussão internacional após ir ao ar na televisão europeia em novembro de 2006. A farsa começou a circular no início dos anos 2000, gerada a partir de uma visita de campo de um grupo de um curso de biopsicoenergia ao cemitério histórico, onde alguns estrangeiros passaram mal.

“Ali o pessoal passou um pouco mal, e foi tão traumatizante para eles”, relata o estudioso. “Ambos voltaram para a Espanha depois e, até onde eu levantei, contaram essa história lá para um tipo desses programas de TV, que são aqueles programas espetaculares, e eles acabaram fazendo uma edição do programa falando a respeito de um cemitério fantasma que existia em um vilarejo no interior de São Paulo.”

O que dizem os registros oficiais

Embora o cemitério guarde restos mortais de estrangeiros, não há qualquer comprovação documental sobre a lenda dos espanhóis assombrados. “Os registros das pessoas que estão enterradas no cemitério do Lazareto são de italianos, brasileiros e também espanhóis. Agora, não existe nenhum registro histórico que comprove essa história deles”, pontua o memorialista.

Sobre os boatos de cremações forçadas e enterros de pessoas com vida, o pesquisador aponta explicações ligadas à ciência da época e ao desconhecimento popular. “As pessoas morriam e, segundo relatos médicos, existiam alguns espasmos após a morte delas e as pessoas diziam que eram enterradas vivas. Agora, sobre elas terem sidos queimadas, não há registro oficial na cidade”, esclarece.

A união entre acontecimentos reais e o folclore local garante que o tema continue gerando interesse na região. “São coisas que vêm sendo contadas. As lendas vão continuar”, conclui Oliveira.

Fonte: G1 Geral

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