Estudo de Yale aponta diferenças cerebrais no reconhecimento facial em crianças autistas

Estudo identifica diferenças no processamento de rostos no autismo

Uma pesquisa conduzida por cientistas da Escola de Medicina da Universidade Yale, nos Estados Unidos, identificou diferenças na forma como o cérebro de crianças autistas processa informações relacionadas a rostos. O estudo, publicado na revista científica Nature Mental Health, aponta que essas diferenças podem surgir em etapas iniciais do processamento visual.

Metodologia com eletroencefalografia e aprendizado de máquina

A investigação reuniu aproximadamente 400 crianças autistas e neurotípicas, de diferentes faixas etárias. Durante o experimento, os participantes observaram imagens de rostos e objetos cotidianos, enquanto pesquisadores registravam a atividade elétrica cerebral por meio de exames de eletroencefalografia (EEG), realizados com 128 eletrodos posicionados no couro cabeludo.

Com técnicas de aprendizado de máquina, os cientistas analisaram se os padrões de atividade cerebral permitiam identificar quais imagens estavam sendo observadas. Os resultados indicaram que os sinais cerebrais das crianças neurotípicas apresentavam padrões mais definidos durante a visualização de rostos. Entre as crianças autistas, essa diferenciação foi menos evidente.

Trajetórias distintas no desenvolvimento neural

Os pesquisadores também identificaram diferenças na evolução dessas respostas ao longo da infância. No grupo neurotípico, a capacidade de identificar os estímulos visuais a partir da atividade cerebral aumentava com a idade. Esse mesmo padrão não foi observado entre as crianças autistas, indicando trajetórias distintas de desenvolvimento das respostas neurais relacionadas ao reconhecimento facial.

Estudos anteriores sobre percepção facial no autismo concentravam-se principalmente no sinal cerebral conhecido como N170, que ocorre aproximadamente 170 milissegundos após a visualização de um rosto. Pesquisas já apontavam que essa resposta poderia surgir mais tarde em pessoas autistas. A nova investigação analisou um intervalo mais amplo da atividade cerebral e encontrou indícios de que as diferenças no processamento de rostos começam antes desse sinal.

Perspectivas para biomarcadores e desafios diagnósticos

Segundo os pesquisadores, a abordagem permite observar outras etapas da resposta neural, ampliando a compreensão sobre como o cérebro processa informações visuais. Os autores avaliam que os resultados podem contribuir para o desenvolvimento de métodos de identificação de padrões cerebrais associados ao autismo.

Atualmente, o diagnóstico é realizado principalmente por meio da avaliação de características comportamentais, sem a utilização de exames biológicos de rotina. Os padrões identificados poderão ser investigados como possíveis biomarcadores, ou seja, características mensuráveis que auxiliem avaliações diagnósticas e a identificação de necessidades de apoio.

Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que as diferenças no processamento de rostos não representam necessariamente dificuldades que exijam intervenção. Pessoas autistas apresentam diferentes características e necessidades de suporte. Em alguns casos, dificuldades para reconhecer rostos ou interpretar expressões faciais podem interferir nas interações sociais cotidianas.

Fonte: Folha Vitória

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