A busca por soluções rápidas para noites de sono agitadas tem impulsionado a popularidade da melatonina, que se tornou facilmente acessível em farmácias, disponível em diversas formas como comprimidos, gotas e até balas de goma. Contudo, a aparente inocuidade do suplemento tem sido questionada por especialistas e pesquisas recentes, que alertam para os perigos do uso sem indicação e acompanhamento profissional, especialmente a longo prazo.
Apesar de ser comercializada sem prescrição médica no Brasil desde outubro de 2021, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a classificou como suplemento alimentar, a melatonina é, na verdade, um neuro-hormônio com múltiplas funções no organismo. Essa distinção é crucial, pois seu uso indiscriminado pode interferir diretamente na fisiologia humana, diferentemente de um suplemento que complementa uma deficiência nutricional.
Estudo da Associação Americana do Coração aponta riscos
Um estudo preliminar apresentado em novembro de 2025 nas Sessões Científicas da Associação Americana do Coração (AHA), nos Estados Unidos, levantou preocupações significativas sobre o uso prolongado de melatonina. A pesquisa, que analisou mais de 130 mil prontuários, comparou indivíduos com insônia crônica que utilizaram a substância por pelo menos um ano com um grupo controle.
Os resultados indicaram que os usuários de melatonina apresentaram uma probabilidade cerca de 90% maior de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo de cinco anos. Além disso, o risco de hospitalização pela condição foi 250% maior, e a probabilidade de morte por qualquer causa foi aproximadamente duas vezes mais elevada no grupo que usava o suplemento. Embora a pesquisa ainda não tenha sido revisada por pares, a neurologista Giuliana Macedo Mendes, do Einstein Hospital Israelita, ressalta que os dados sugerem uma forte associação que demanda atenção de médicos e da população.
A verdadeira natureza da melatonina: um hormônio essencial
A Anvisa justificou a classificação da melatonina como suplemento alimentar por considerá-la uma substância bioativa naturalmente presente em alimentos e segura dentro dos limites estabelecidos. No entanto, o professor José Cipolla-Neto, especialista em neurofisiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP), enfatiza que a melatonina é um hormônio que regula o ritmo circadiano, o “relógio biológico” do corpo.
Sua produção pela glândula pineal, localizada no cérebro, inicia-se com a escuridão noturna e cessa ao amanhecer, coordenando processos essenciais para o repouso, como a redução da temperatura corporal e da pressão arterial, e a indução do sono. Além disso, a produção de melatonina também atua como um “cronômetro” noturno, sinalizando a duração da noite para o organismo e permitindo ajustes importantes para manter o equilíbrio fisiológico.
Indicações precisas e os perigos do uso excessivo
A melatonina sintética disponível no mercado possui as mesmas características do hormônio natural, o que exige cautela e monitoramento. A neurologista Giuliana Macedo Mendes alerta que é comum que usuários excedam o limite de segurança de 0,21 mg estabelecido pela Anvisa, mantendo o excesso da substância no organismo mesmo após acordar.
Os efeitos colaterais imediatos do excesso incluem sonolência diurna, tontura, dor de cabeça e desorientação. As complicações a longo prazo, como as sugeridas pelo estudo da AHA, ainda estão sendo investigadas. A suplementação da substância é indicada apenas em quadros específicos, como lesões nas regiões pré-quiasmáticas que causam cegueira e impedem a percepção da luminosidade, ou distúrbios de ritmo circadiano de atraso ou avanço de fase de sono, onde a produção hormonal é desregulada.
Alternativas para um sono reparador
É fundamental compreender que a melatonina não é uma solução universal para a insônia. A Anvisa, inclusive, não permite que empresas aleguem a melhora da insônia pelo consumo de suplementos de melatonina sem comprovação científica. A privação e a má qualidade do sono impactam diretamente o humor, a concentração e a disposição, tornando crucial a busca por tratamentos adequados.
Muitas vezes, a insônia está associada a condições como ansiedade, depressão e dor crônica, que podem ser tratadas com medicamentos específicos, melhorando a qualidade do sono. A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é considerada o tratamento padrão-ouro, atuando em pensamentos e hábitos que perpetuam o problema. Além disso, a adoção de uma boa higiene do sono, que inclui evitar luzes intensas à noite, praticar exercícios físicos pela manhã ou à tarde, e fazer refeições leves antes de dormir, pode ser mais eficaz do que a automedicação.
Fonte: metropoles.com