Esquecimento do eleitor brasileiro revela desafios para a democracia

85% dos entrevistados. O dado, à primeira vista, é só curiosidade de pesquisa. M

Uma pesquisa Datafolha divulgada recentemente expõe um quadro preocupante sobre a memória política do eleitor brasileiro. De acordo com o levantamento, 68% dos entrevistados não conseguem citar nenhum deputado federal em exercício, enquanto 75% não lembram de nenhum senador. O esquecimento se estende ao próprio voto: 67% não recordam em quem votaram para deputado federal em 2022, embora 85% se lembrem de sua escolha na disputa presidencial.

Esse dado, à primeira vista, pode parecer apenas uma curiosidade, mas revela uma contradição significativa na sociedade brasileira. Embora haja um descontentamento generalizado com os governantes, evidenciado nas redes sociais e em conversas informais, a população não se informa adequadamente sobre quem ocupa as cadeiras do poder. A indignação é abundante, mas o comprometimento cívico é escasso.

O ato de se informar sobre política exige tempo e esforço, e muitos eleitores sentem que seu voto individual não tem impacto. Essa percepção leva a uma “racionalidade” que resulta em uma economia de esforço ao acompanhar o trabalho de 513 deputados e 81 senadores, confiando em atalhos como a insatisfação geral e a polarização política. Contudo, essa abordagem tem um custo institucional elevado, como será discutido a seguir.

Politização e militância: qual a diferença?

É crucial distinguir entre ser politizado e ser militante. Politizar-se envolve entender o funcionamento do sistema político, como o orçamento é gerido e quais propostas estão em tramitação. É uma disposição para acompanhar a política de forma crítica. Por outro lado, militância refere-se ao engajamento ativo em causas, partidos ou candidaturas, com mobilização e adesão. É possível ser militante sem ter um entendimento profundo do processo político, assim como é viável ser politizado sem se identificar com um grupo específico.

O impacto do esquecimento na democracia

A pesquisa também destaca um aspecto crítico da democracia: a necessidade de que os eleitores avaliem o desempenho de seus representantes e decidam se renovam ou não seus mandatos. Esse mecanismo depende da memória dos eleitores em relação a promessas e ações dos políticos. Quando 67% dos eleitores não lembram em quem votaram, e a maioria não consegue nomear um único parlamentar, o elo entre a representação e a responsabilidade se rompe.

Essa falta de memória impede que a insatisfação se traduza em cobranças concretas. A crítica à política se torna genérica, sem direcionamento a nomes ou mandatos específicos. Lembrar de quem votou e das promessas feitas é fundamental para que a palavra “cobrança” tenha um efeito real sobre os representantes escolhidos. A ausência de sanções eleitorais efetivas alimenta um ciclo de desinformação e desinteresse, dificultando a construção de uma democracia mais robusta.

Fonte: folhavitoria.com.br

Mais recentes

PUBLICIDADE