A história de Roberta Ribeiro Zamarioli, uma dona de casa de 46 anos residente em São Paulo, ganhou um novo capítulo após uma descoberta inesperada que a levou a uma intervenção médica de alta complexidade. O que começou como uma investigação para dores na articulação temporomandibular (ATM) e cefaleia persistente, em outubro de 2025, culminou na identificação de uma malformação arteriovenosa (MAV) cerebral, exigindo uma cirurgia cerebral acordada para a remoção.
A iniciativa de Roberta em incluir uma ressonância do crânio nos exames odontológicos revelou uma condição congênita que, até então, não apresentava histórico neurológico relevante. O diagnóstico precoce e a decisão por um tratamento especializado foram cruciais para evitar um risco elevado de acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico, oferecendo à paciente uma nova perspectiva de vida.
O Diagnóstico Inesperado e a Ameaça da Malformação Arteriovenosa
As dores intensas e a cefaleia persistente levaram Roberta a buscar exames que, por sua própria decisão, incluíram uma ressonância do crânio. Essa escolha revelou uma malformação arteriovenosa (MAV), uma alteração vascular congênita rara e complexa. Após exames complementares como tomografia e angiografia, o diagnóstico foi confirmado, alertando para o alto risco de um AVC hemorrágico.
A MAV é caracterizada por uma conexão direta e anormal entre artérias e veias, sem a presença de capilares, formando uma rede conhecida como nidus. Nesta estrutura, o sangue circula em alta velocidade, desviando o fluxo de áreas cerebrais vizinhas, um fenômeno conhecido como “roubo de fluxo”. Essa condição pode comprometer funções cerebrais essenciais e, em muitos casos, exige tratamento especializado.
A Complexidade da Lesão e a Escolha da Cirurgia Cerebral Acordada
No caso de Roberta, a malformação estava localizada em uma região particularmente sensível do cérebro, próxima a áreas responsáveis pela linguagem e por funções executivas, como planejamento e controle do comportamento. Devido a essa localização crítica, as opções de embolização e radioterapia foram descartadas, e a microcirurgia foi indicada como a estratégia mais eficaz para reduzir o risco de sangramento.
O procedimento foi realizado em 3 de fevereiro de 2026, sob a supervisão do neurocirurgião Feres Chaddad, na Beneficência Portuguesa – Unidade Mirante. A proximidade da MAV a essas áreas eloquentes representava um desafio significativo: remover a malformação sem causar sequelas permanentes, especialmente na capacidade de fala da paciente.
A Cirurgia Cerebral Acordada: Mapeando o Cérebro em Tempo Real
A técnica da cirurgia cerebral acordada foi fundamental para o sucesso do procedimento. Ela permite que a equipe médica mapeie as áreas essenciais do cérebro em tempo real, enquanto o paciente está consciente e colaborando. Durante a operação, Roberta realizou tarefas de linguagem, o que possibilitou aos cirurgiões identificar e preservar as regiões críticas.
Um dos desafios específicos era a possível irrigação de áreas da fala por um dos vasos da malformação. A cirurgia acordada permitiu testar temporariamente o fluxo nesses vasos e avaliar imediatamente qualquer impacto na linguagem. Essa abordagem minimiza o risco de danos funcionais, como a afasia, que é a dificuldade ou perda da capacidade de comunicação.
Riscos Associados e a Recuperação Pós-Operatória
Cirurgias de MAV em áreas ligadas à linguagem carregam riscos consideráveis, incluindo afasia, hemorragia durante o procedimento, edema cerebral e déficits neurológicos transitórios. A complexidade é ampliada pela dificuldade em distinguir os vasos que alimentam a malformação daqueles que irrigam o tecido cerebral saudável.
Apesar do medo natural durante a cirurgia, Roberta descreve o momento em que percebeu que sua fala estava intacta como um divisor de águas. Sua recuperação tem sido gradual, com acompanhamento multiprofissional. Curiosamente, sintomas pré-existentes, como trocas de palavras, desapareceram após a remoção completa da MAV, indicando uma melhora significativa em sua qualidade de vida.
Prognóstico Favorável e Nova Qualidade de Vida
De acordo com o neurocirurgião Feres Chaddad, o prognóstico para pacientes cuja MAV é completamente removida e cujas áreas eloquentes são preservadas é geralmente favorável. Além de eliminar o risco de futuros episódios hemorrágicos, a cirurgia pode resolver e melhorar sintomas prévios que estavam relacionados à alteração do fluxo sanguíneo cerebral.
A experiência de Roberta é um testemunho da eficácia e da importância de procedimentos inovadores como a cirurgia cerebral acordada. Hoje, ela celebra a melhora contínua em sua saúde. “Minha qualidade de vida tem melhorado a cada dia”, afirma, resumindo a transformação que a intervenção cirúrgica trouxe para sua vida.
Fonte: metropoles.com