No Paraná, iniciativas inovadoras estão levando a educação diretamente ao local de trabalho, permitindo que trabalhadores concluam seus estudos durante o expediente. Com mais de 73 milhões de brasileiros com 18 anos ou mais sem a educação básica completa, programas como os da construtora MRV e da rede de shoppings Multiplan se destacam como soluções viáveis.
Educação no canteiro de obras: o programa da MRV
Três vezes por semana, Admilson Figueiredo de Andrade, de 46 anos, troca a rotina da construção civil por aulas que ajudam a concluir sua educação básica. Funcionário da MRV em Curitiba, ele faz parte de um programa que, desde 2011, estabeleceu 326 escolas em canteiros de obras, beneficiando mais de 7 mil colaboradores.
Admilson interrompeu seus estudos aos 16 anos para trabalhar, mas ao descobrir a oportunidade de estudar na empresa, não hesitou em se inscrever. As aulas, que vão da alfabetização à preparação para o Encceja, são realizadas em espaços adaptados dentro do canteiro, como refeitórios e salas de treinamento, possibilitando um aprendizado prático e acessível.
O impacto da educação no shopping
No Park Shopping Barigüi, a Multiplan também oferece aulas durante o expediente. Kamila de las Mercedes Sanchez llerena, uma funcionária cubana de 22 anos, participa das aulas para aprender português e revalidar seus diplomas. A experiência de Kamila ilustra como a educação pode ser uma ponte para a integração cultural e profissional em um novo país.
Além de desenvolver competências, essas iniciativas têm reflexos positivos na vida pessoal e profissional dos trabalhadores. Um levantamento da MRV revelou que 83% dos colaboradores desejam permanecer na empresa devido ao programa, enquanto 89% notaram um aumento na produtividade.
Desafios e soluções para a educação de adultos
Retomar os estudos pode ser desafiador para adultos, especialmente aqueles com responsabilidades familiares e profissionais. No caso da MRV, as aulas são planejadas para atender a essas particularidades, com acompanhamento contínuo e avaliações regulares para monitorar o progresso dos alunos.
A professora Silvana Bárbara, que atua no projeto, observa que muitos alunos enfrentam dificuldades devido ao tempo em que estiveram afastados da escola. No entanto, a personalização do ensino e o suporte individualizado têm se mostrado eficazes para motivar os alunos a prosseguir com seus estudos.
A situação da Educação de Jovens e Adultos no Paraná
Para aqueles que não têm acesso a iniciativas como as da MRV e Multiplan, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) é uma alternativa. Contudo, o número de matrículas na EJA no Paraná caiu 64,5% entre 2007 e 2025, um reflexo de diversos fatores, incluindo a falta de informação e a necessidade de conciliar trabalho e estudo.
Luana Smeets, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, destaca que a queda nas matrículas não significa que o problema está resolvido. A educação é um direito garantido pela Constituição, e a redução de turmas e a concentração da oferta em menos unidades podem dificultar o acesso à educação para muitos adultos.
Perspectivas para o futuro da EJA
Para tornar a EJA mais atrativa, Smeets sugere a articulação com a Educação Profissional e Tecnológica, que combina a conclusão do ensino básico com formação técnica. Apesar da queda nas matrículas da EJA, a educação integrada à formação profissional tem visto um aumento, indicando uma demanda por qualificação que pode ser atendida por meio de propostas curriculares mais conectadas com as necessidades do mercado.
O novo Plano Nacional de Educação (PNE) prevê a alfabetização de 97% da população de 15 anos ou mais, um objetivo ambicioso que requer a colaboração de todos os setores da sociedade.
Fonte: g1.globo.com