Berkshire Hathaway enfrenta desafios na Bolsa antes da primeira assembleia de Greg Abel como CEO

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Dias antes de sua primeira assembleia anual como diretor-presidente (CEO) da Berkshire Hathaway, Greg Abel enfrenta um problema que raramente se colocou diante de seu lendário antecessor: um preço de ação patinando.

Antes sinônimo de performance consistentemente superior, as ações do conglomerado de US$ 1 trilhão ficaram muito para trás em relação ao mercado mais amplo desde que Warren Buffett anunciou que se aposentaria e passaria o comando a Abel há um ano.

Até quarta-feira, as ações Classe B ficaram atrás do índice S&P 500 em mais de 37 pontos percentuais nos últimos doze meses, o pior período de um ano desde 2000. Isso, por sua vez, fez com que o valor de mercado da Berkshire recuasse US$ 139 bilhões nesse intervalo.

Impactos recentes ligados a participações como Kraft Heinz ajudam a explicar parte do marasmo, assim como um mercado acionário caro e obcecado por IA, que deixou à Berkshire poucas oportunidades de “deep value” para empregar seu caixa de US$ 373 bilhões.

Mas, embora Abel provavelmente toque nesses temas durante a reunião de sábado, outro motivo para a fraqueza das ações pode ser mais difícil de endereçar: com o “Oráculo de Omaha” fora de cena, alguns investidores estão passando a ver os defeitos da Berkshire com menos indulgência — ao menos até que o CEO de 63 anos consiga conquistar parte da confiança que Buffett e seu falecido parceiro de negócios Charlie Munger desfrutavam.

“Como investidores, nós recebemos bem a abordagem de ‘seguir no mesmo rumo’ do Abel”, disse Christopher Davis, da Hudson Value Partners, que detém ações da companhia desde 2019. “No entanto, parece que o mercado pode estar esperando que ele execute um clássico investimento ao estilo Berkshire como evidência de que a máquina consegue funcionar da mesma forma com um novo operador.”

O ‘prêmio Buffett’ e os desafios de Abel

O preço combalido das ações da Berkshire destaca o desafio que Abel — que assumiu como CEO em janeiro — enfrenta ao se sentar no comando de uma companhia que por muito tempo carregará a marca de Buffett, hoje com 95 anos, amplamente considerado um dos maiores investidores da história. Um porta-voz da Berkshire preferiu não comentar.

Impulsionadas pela celebrada capacidade de Buffett de escolher ações e alocar capital com astúcia, as ações da companhia rotineiramente superaram o S&P 500 ao longo de seus 61 anos de história como conglomerado. Embora a diferença tenha se estreitado nas últimas décadas, o desempenho continua impressionante: as ações Classe B da Berkshire registraram um ganho médio anual de 11% desde 1997, sob o comando de Buffett — um ponto percentual acima do retorno total anualizado do S&P 500 nesse mesmo período.

Como resultado, os investidores estavam dispostos a pagar um chamado “prêmio Buffett”, normalmente avaliando as ações da companhia acima do mercado em geral. Mas, embora Abel tenha prometido seguir a abordagem de Buffett para investir e gerir riscos — a reunião de sábado traz o slogan “O Legado Continua” — pode levar anos até que os acionistas se sintam seguros de que Abel consegue se aproximar do toque de investidor de seu predecessor.

Buffett criou “uma mística, uma espécie de aura psicológica em torno da empresa”, disse Lawrence Cunningham, autor de vários livros sobre Buffett e acionista de longa data da Berkshire. “Se ele não vai mais estar lá, você vai ver alguma erosão dessa mística, e isso vai aparecer no preço da ação.”

Relação preço/valor patrimonial da Berkshire recua

Parte dessa apreensão também é visível na relação preço/valor patrimonial (price-to-book) da Berkshire. Esse indicador vem caindo no último ano e agora está em cerca de 1,4, em comparação com quase 1,8 antes da assembleia anual do ano passado — embora já tenha sido tanto mais alto quanto mais baixo ao longo da história da empresa.

A saída de Buffett “foi em certa medida um gatilho para que algumas pessoas que detinham ações da Berkshire vendessem, dada a avaliação”, disse Brian Meredith, analista de seguros do UBS Group AG.

Crescimento fraco e falta de transparência

Analistas também apontam que Abel — um operador hábil que transformou o negócio de energia da empresa em um de seus maiores motores de lucro — ainda assim não tem formação em gestão de recursos, um mandato central na Berkshire.

Apesar de um sólido histórico operacional, Abel “nunca geriu dinheiro profissionalmente”, disse Cathy Seifert, analista da CFRA Research.

Ao mesmo tempo, catalisadores para a fraqueza da ação que vinham se formando há anos estão ganhando mais destaque agora que Buffett saiu de cena.

Crescimento fraco de receita e lucros decepcionantes nos negócios de seguros do conglomerado têm pesado sobre o sentimento dos investidores. O resultado de underwriting (subscrição) das operações de seguros da Berkshire despencou mais de 54% no quarto trimestre, enquanto pares conseguiram superar as expectativas no período.

E, no ano passado, uma baixa contábil combinada de US$ 8,3 bilhões em investimentos em Kraft Heinz Co. e Occidental Petroleum Corp. prejudicou a reputação da Berkshire como adquirente bem-sucedida, segundo Seifert. O lucro operacional geral caiu 6% no ano passado.

A conhecida falta de transparência da companhia é outro fator. A Berkshire é a única empresa de capital aberto de seu porte que não tem uma área de relações com investidores e que não organiza dias do investidor além de sua assembleia anual em Omaha todo mês de maio.

Embora isso pudesse ser visto como uma excentricidade perdoável durante as seis décadas em que Buffett e Munger comandaram a empresa, o desempenho fraco das ações sugere que os acionistas ainda não conferiram o mesmo voto de confiança a Abel.

Expectativas para o futuro

Há ainda a questão das avaliações do mercado como um todo. Com o entusiasmo em torno da inteligência artificial ajudando a levar as ações a novas máximas, apesar das tensões no Oriente Médio, os múltiplos das bolsas estão altos por vários critérios — incluindo um indicador favorito do próprio Buffett. Essa medida, que compara o valor de mercado total das ações dos EUA ao produto interno bruto, hoje supera 220%, perto de uma máxima histórica.

“O mercado talvez não espere que Abel acerte home runs de longo prazo como Buffett, mas provavelmente quer ver como ele identifica nomes voltados a valor, o que, por natureza, leva tempo”, disse Matthew Palazola, analista da Bloomberg Intelligence.

Mesmo pequenos passos de Abel têm sido encorajadores para acionistas ávidos por boas notícias. As ações da Berkshire subiram depois que a empresa retomou os programas de recompra, sinalizando uma confiança renovada na capacidade de gerar valor para os acionistas.

Fonte: infomoney.com.br

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