O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) completou 95 anos na quinta-feira (18.jun.2026). Mais de duas décadas após deixar o Planalto, ele continua sendo uma figura central na história recente do Brasil, mesmo para aqueles que ainda não haviam nascido quando assumiu o governo.
Seus admiradores atribuem a modernização da economia brasileira e a criação de bases que possibilitaram a expansão de políticas sociais a seu governo. Por outro lado, críticos apontam a persistência das desigualdades e os efeitos negativos de reformas liberais.
O PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), seu partido, possui atualmente um tamanho ínfimo se comparado à sua importância na década de 1990. Em 1998, a legenda tinha a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, com 99 cadeiras. Em 2022, elegeu apenas 13 deputados, ocupando a décima posição.
Esse espaço foi ocupado por outras legendas de centro-direita e direita, especialmente o PL (Partido Liberal), que elegeu a maior bancada em 2022 (99 deputados) e é o partido do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, que ocupa a segunda posição nas pesquisas eleitorais.
No espectro da centro-esquerda e esquerda, o PT (Partido dos Trabalhadores), histórica oposição de FHC, continua sendo o maior partido, com a segunda maior bancada em 2022 (67 deputados) e Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição, liderando as pesquisas para o Planalto.
O Poder360 consultou jovens líderes partidários do PT, PL e PSDB para que apontassem os prós e contras do governo FHC.
PT cita reorganização da economia e compra de votos
Julia Köpf, 28 anos, presidente nacional da Juventude do PT, caracterizou as gestões FHC como “marcadas por contradições”.
Ela apontou avanços na reorganização da economia por meio do Plano Real, que eliminou a hiperinflação, mas desaprovou a adoção de um “modelo econômico mais neoliberal, com privatizações e uma presença muito forte da lógica de mercado na condução do Estado”.
A agenda liberal na economia foi uma marca do governo FHC. O ex-presidente sempre negou ser “neoliberal”, alegando que esse modelo implica “inexistência de regras”.
Suas políticas de responsabilidade fiscal e as privatizações em setores como telecomunicações e energia geraram o que alguns chamam de “legado maldito”, termo utilizado pelos governos petistas que o sucederam.
Köpf mencionou como positivas as políticas educacionais, como a criação do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que se tornaram importantes na democratização da educação no Brasil.
Por outro lado, criticou a “dependência muito grande do mercado internacional” e o caso da compra de votos para aprovar a emenda da reeleição em 1997, que beneficiou o ex-presidente e outros mandatários da época.
FHC sempre negou envolvimento no esquema, que não resultou em consequências jurídicas para ele. O então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, rejeitou pedidos para apresentar denúncia ao Supremo Tribunal Federal.
Em 2020, FHC fez um “mea culpa” sobre a reeleição, afirmando que a decisão “agrava” o abuso de poder.
PL celebra Plano Real e critica políticas “assistencialistas”
Evandro Araújo, 32 anos, presidente do PL Jovem no Distrito Federal, destacou a ação de FHC enquanto Ministro da Fazenda na criação do real. “Ajudou a trazer previsibilidade econômica para o país, controlando a inflação”, afirmou.
Antes do lançamento do Plano Real, a inflação anualizada em junho de 1994 era de 4.922%. Ao fim de 1995, a taxa caiu para 22%. Desde então, o índice acumulado raramente ultrapassou 9%.
No entanto, Araújo criticou a guinada à esquerda do ex-presidente, considerando alguns programas criados na gestão FHC como “assistencialismo”. Para ele, muitos projetos foram transformados em moeda política.
Essa crítica é comum na direita. Programas como o Bolsa Escola e o Auxílio Gás, criados durante o governo FHC, foram posteriormente incorporados ao Bolsa Família, frequentemente alvo de críticas por parte de integrantes desse espectro político.
Ainda assim, Flávio Bolsonaro defendeu o programa, propondo ampliar o período em que beneficiários continuam recebendo auxílio após conseguirem emprego formal.
O Bolsa Família foi ampliado no último ano da gestão Jair Bolsonaro, que deixou 21,6 milhões de famílias recebendo o auxílio.
PSDB elogia privatizações, mas vê “falta de conexão” com povo
Vinícius Leão, 28 anos, vice-presidente da Juventude PSDB, afirmou que “desde o governo FHC, não se vê um Brasil discutindo coisas que realmente mudarão a vida das pessoas, como a economia e a política social”.
Ele elencou como fatores positivos da gestão tucana as privatizações, o Plano Real e o lançamento de programas como o de medicamentos genéricos, sancionado por FHC.
A responsabilidade fiscal e o novo plano econômico proporcionaram previsibilidade sobre os preços e reduziram a pobreza no curto prazo. No entanto, críticos apontam que a estabilidade da moeda não foi acompanhada de crescimento constante e do fim da desigualdade.
Leão acredita que o erro das gestões FHC foi “a falta de mensagem para a população, a falta de conexão com as pessoas, para que reconhecessem isso”. Segundo ele, essa “falta de conexão foi um dos motivos do PSDB nunca mais voltar ao governo”.
“Um intelectual na política”
Formado em sociologia, FHC teve uma extensa atuação na oposição ao governo militar e na redemocratização do país. Co-fundou o PSDB e, atualmente, devido ao Alzheimer, não participa mais da vida pública.
Durante seu governo, foram criados o Ministério da Defesa e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), além do reconhecimento das violações dos direitos humanos durante a ditadura.
Após a presidência, FHC participou ativamente do debate social. “Um intelectual na política”, ele se destacou por sua contribuição ao pensamento crítico brasileiro.
Fonte: poder360.com.br