A 15ª Conferência das Nações Unidas da Convenção sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), conhecida como COP15, concluiu seus trabalhos em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, com resultados considerados inéditos para a conservação da biodiversidade global. O evento, que representa o principal tratado da ONU focado na proteção de animais que atravessam fronteiras nacionais, reuniu 132 países e a União Europeia para discutir e implementar medidas cruciais para a sobrevivência de espécies que dependem de vastos territórios e ecossistemas interconectados.
A escolha de Campo Grande como sede da conferência não foi aleatória. Localizada na entrada do bioma Pantanal, a cidade proporcionou um cenário emblemático para as discussões sobre a importância da conectividade ecológica e a cooperação transfronteiriça. O Pantanal, um dos maiores biomas úmidos do mundo, é um corredor vital para dezenas de espécies migratórias, sendo compartilhado por Brasil, Paraguai e Bolívia, o que ressalta a necessidade de uma articulação intensa para sua proteção.
Resultados históricos na proteção de espécies migratórias
A COP15 alcançou um marco significativo ao aceitar a inclusão de mais 40 espécies na lista de proteção da Convenção, elevando o número de animais sob salvaguarda internacional. Além disso, os participantes adotaram 39 novas resoluções e 16 ações de cooperação internacional, demonstrando um esforço conjunto sem precedentes para enfrentar os desafios da conservação. O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Rodrigo Agostinho, destacou a relevância desses números durante a conferência de encerramento.
Agostinho ressaltou que, apesar dos avanços, ainda existem cerca de 400 espécies migratórias no mundo que não estão em nenhuma lista de proteção. A inclusão de 40 novas espécies representa aproximadamente 10% desse déficit mundial, um feito que nenhuma outra COP havia alcançado em termos de representatividade. Um ponto de debate foi a proposta de exclusão do cervo-de-bocara da lista, que foi rejeitada, reforçando o entendimento de que mesmo espécies não mais ameaçadas precisam continuar protegidas para garantir que “as espécies comuns continuem comuns”.
O papel estratégico do Brasil e a relevância do Pantanal
O Brasil desempenhou um papel central na COP15, não apenas como país anfitrião, mas também como proponente de importantes iniciativas de conservação. Das sete propostas brasileiras para a inclusão de espécies ameaçadas de extinção na lista de proteção, seis foram aceitas. Essas espécies demandam esforços urgentes de conservação devido à sua vulnerabilidade e à importância ecológica. Além disso, o Brasil apoiou propostas lideradas por outros países, como a bem-sucedida inclusão da ariranha, um mamífero aquático emblemático, na lista de proteção.
O presidente da conferência, João Paulo Capobianco, enfatizou o sucesso do evento, tanto nos resultados coletivos quanto nas iniciativas lideradas pelo Brasil. A escolha de Campo Grande e a proximidade com o Pantanal serviram para ilustrar a urgência da proteção de biomas essenciais e a complexidade da gestão de áreas compartilhadas internacionalmente. A diversidade biológica do Pantanal e sua sensibilidade às mudanças ambientais o tornam um laboratório natural para a implementação de estratégias de conservação de espécies migratórias.
Planos de ação e a continuidade da liderança brasileira
Além das inclusões de espécies, a COP15 também aprovou planos de ação cruciais para a conservação. Entre eles, destacam-se o Plano de Ação para a Conservação dos Grandes Bagres Migratórios Amazônicos, que visa proteger essas importantes espécies de peixes que realizam longas migrações nos rios da Amazônia. Outras iniciativas apoiadas pelo Brasil incluem a conservação das espécies de tubarão-mangona e tubarão-peregrino, que enfrentam ameaças significativas em seus habitats marinhos.
A liderança do Brasil na conservação de espécies migratórias será mantida nos próximos anos. O país continuará na presidência da COP pelos próximos três anos, até a realização da COP16. A próxima conferência está agendada para 2029 e será sediada em Bonn, Alemanha. Essa continuidade na presidência reforça o compromisso do Brasil com a agenda ambiental global e sua capacidade de articular esforços internacionais para a proteção da vida selvagem.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br